sexta-feira, maio 20, 2011

Exposição "Fronteiras" - Encontros de Fotografia de Bamako.





Uma exposição na Gulbenkian mostra 180 fotografias e vídeos de fotógrafos e artistas africanos (com uma afro-americana à mistura). É a África contemporânea das migrações, das fronteiras herdadas da colonização, das viagens impossíveis e dos vistos improváveis.


Duas gerações para uma fotografia. Duas mulheres que facilmente imaginamos mãe e filha posam para a objectiva de Arwa Abouon, deixando que o tecido estampado da sua roupa se confunda com o papel de parede, tornando impossível distinguir, de imediato, o contorno dos seus corpos. A fronteira que as separa é a do tempo ou, se olharmos para o lado e as confrontarmos com o pai e o filho que o outro díptico deste líbio retrata, a do género.


Na exposição que abriu na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, as "Fronteiras" não estão só nos mapas - estão também na cabeça, na legislação que restringe os direitos das mulheres, nas guerras que separam etnias e famílias, nas tradições que fazem de um albino um mau presságio.


"Tudo nesta fotografia parece certo", diz António Pinto Ribeiro, comissário de "Fronteiras", exposição que integra até 28 de Agosto o programa Próximo Futuro e que foi criada pela Bienal Africana de Fotografia de Bamako. "A composição, o tema do diálogo entre duas gerações de mulheres que vivem num país em que muitas vezes é duro ser mulher, a tensão que se adivinha antes e depois da fotografia."


Tensão é uma palavra crucial nesta exposição produzida no Mali que junta 180 fotografias e vídeos de mais de 50 artistas de 23 países africanos (mais uma afro-americana, Ayana Jackson), do Egipto à África do Sul, passando pelo Chade, o Sudão, a Costa do Marfim e o Burkina Faso. Imagens impressionantes de crianças que vivem debaixo de uma ponte na Nigéria ao lado de outras que registam o "glamour" das festas de Nairobi. Em comum os rostos, as pessoas. "A fotografia contemporânea africana é habitada, não está cheia de 'não-lugares' como a que vemos habitualmente nas galerias americanas e europeias", acrescenta Pinto Ribeiro, responsável pela montagem da exposição em Lisboa.


Michket Krifa, uma das comissárias dos Encontros de Bamako, não gosta de falar em "fotografia africana" porque teme que leve a generalizações erróneas, uma vez que o panorama varia muitíssimo de país para país, sendo os pólos clássicos de maior desenvolvimento da fotografia a África do Sul, Moçambique, a Nigéria, o Mali e o Egipto, e os emergentes a República Democrática do Congo, a Etiópia, a Tunísia, a Algéria e Marrocos. "Quisemos mostrar a diversidade de abordagens - documentais, jornalísticas, plásticas - à fronteira", explica ao Ípsilon via "email". "Mas hoje as temáticas são tratadas em África como em qualquer outro lugar devido à mundialização e às problemáticas sociais, ambientais e políticas."


Federica Angelucci, curadora de fotografia numa importante galeria da Cidade do Cabo, também prefere evitar criar um rótulo para definir a fotografia que se faz no continente. Diz que "a noção de africanidade é extremamente fluída e demasiado ilusória", mas reconhece que, na maioria das vezes, os africanos que se dedicam à fotografia estão muito interessados na condição humana, embora façam experiências com a abstracção e outras formas.


Angelucci, que estará em Lisboa para uma série de "workshops" e debates do Próximo Futuro (programa em www.gulbenkian.pt), viu "Fronteiras" em Bamako em 2009 e na Cidade do Cabo em 2010 e garante que a força da exposição está na abordagem conceptual ao tema e numa produção que rejeita clichés sem deixar de dar espaço à tradição (como os retratos de estúdio), mostrando ao mesmo tempo novas maneiras de olhar o mundo. "Os fotógrafos estão conscientes dos conflitos armados, das guerras étnicas, dos milhões de refugiados... É natural que o imaginário produzido seja permeável a tudo isto."


Para dar exemplos, esta especialista em fotografia contemporânea faz questão de falar do sudanês Ali Mohamed Osman e do nigeriano Uche Opkpa-Iroha - o da ponte que serve de casa a dezenas de crianças -, que lidam com os fluxos de circulação e a exclusão, a partir do território de comunidades marginais.


No trabalho destes fotógrafos e de muitos outros que expõe na sua galeria ou sobre os quais escreve, "as fronteiras entre uma abordagem documental, supostamente neutra, e a prática artística são muito difusas".



Um mapa escondido


Bouchra Khalili nasceu em 1975, em Casablanca, mas hoje, depois de um calvário burocrático, tem também nacionalidade francesa. É uma das 11 mulheres com obras expostas em "Fronteiras". Quando recebeu o "email" do Ípsilon estava a trabalhar em Beirute, no Líbano, e foi a partir daí, a pensar nas exposições que faz em Inglaterra e nos Estados Unidos ou na próxima Bienal de Veneza, que falou da internacionalização, do projecto "Mapping Journey", da condição de mulher, africana e muçulmana, dos vídeos que lhe permitem denunciar a clandestinidade humilhante a que são obrigados milhares de migrantes. A obra de Khalili também vive nesta fronteira entre o documental e o artístico, mas a única coisa que parece interessar-lhe é o seu capital de denúncia e de mobilização.


Em "Mapping Journey" - "work in progress" que começou em 2008 e já a levou a Marselha, Ramallah, Bari, Roma e Barcelona -, a artista marroquina trabalha os fluxos migratórios a partir de histórias pessoais que aproximam os seus protagonistas de quem os ouve no contexto de um museu ou de uma galeria. Esta semana é impossível fazê-lo sem pensar nas 61 pessoas que terão morrido de fome e de sede numa embarcação que partiu de Trípoli com destino à ilha italiana de Lampedusa e que durante duas semanas vagueou pelo Mediterrâneo, com o conhecimento da NATO e das autoridades de Itália e de Malta.


As migrações clandestinas, realidade que para Khalili marca o dia-a-dia do sul do Mediterrâneo, da África e do Médio Oriente, são o fio condutor de "Mapping Journey", "um corpo de trabalhos que revela um mapa escondido, construído à volta de rotas ilegais".


Ao contrário de Angelucci e de Krifa, a jovem artista acredita que grande parte do que faz está enraizado no lugar - e no contexto - em que nasceu. "Quando se vem de onde eu venho - nasci em Marrocos, que ora está em África, ora está no mundo árabe - é difícil escapar às questões políticas. Um artista deste lado do mundo não pode fugir a esta complexidade."



Fronteiras intransponíveis


Kole Omotoso, escritor e crítico nigeriano de 68 anos que dá hoje uma das grandes lições do Próximo Futuro ("The Endangering Ambiguity of the Wabenzi Tribe: Next Futures Africa", às 14h30), diz que as migrações são apenas um dos muitos problemas do continente - é preciso não esquecer "o desperdício de matérias-primas, a fuga de cérebros, a falta de uma verdadeira educação, todo o tipo de discriminação, crimes contra as crianças do sexo feminino, a imbecilidade política, o constante mendigar de ajuda externa" - e que as fronteiras herdadas dos colonizadores e da conferência de Berlim de 1884-85 são hoje praticamente intransponíveis, separando famílias e grupos étnicos. "Vejam-se as fronteiras entre a Nigéria e a República do Benim que dividem os povos yoruba", exemplifica Omotoso, garantindo que, no entanto, a maior dificuldade que decorre das fronteiras africanas é o facto de tornarem as viagens no continente, a comunicação e a socialização "virtualmente impossíveis ou a preços proibitivos".


"Hoje as fronteiras criminalizam até a mais natural das actividades - levar alguns inhames e milho a familiares que vivem ali mesmo ao lado", diz, falando de outra fronteira imaterial, a da energia. "O fornecimento de electricidade na Nigéria é epiléptico. Em mais de 40 anos, nenhum governo - militar ou civil - conseguiu resolver o problema. Entretanto, toda a gente tem de comprar dois ou três geradores e as fábricas funcionam a 25 por cento da sua capacidade. Isto é uma loucura." Basta pensar que uns podem comprar geradores e outros não para traçarmos mais uma linha divisória.


Se há uma coisa em que todos concordam, é que para um artista africano é mais fácil viajar para a Europa e para os EUA do que para muitos países do continente. Ainda assim, poucos são os que se internacionalizam, apesar de o número ter vindo a aumentar, graças aos festivais e bienais de fotografia que vão surgindo, como os de Lagos e de Addis-Abeba.


"Muitos destes fotógrafos só expõem nos centros culturais estrangeiros dos seus países", diz Pinto Ribeiro, mas outros já entraram no circuito internacional, como Zac Ové e as suas fotografias dos rituais de Trindade e Tobago, Mohamed Bourouissa e a periferia de Paris, Lilia Benzid e o cemitério tunisino de Zaafrane em que as pedras tumulares parecem vestidas.
A questão da circulação é muito sensível, sublinha a curadora Federica Angelucci, porque "a prática dos fotógrafos contemporâneos é cada vez menos definida por um conjunto de atributos visuais, e cada vez mais pelos contextos de circulação do seu trabalho".


Depois de passar por Lagos, por Barcelona e pela Cidade do Cabo, "Fronteiras" mostra em Lisboa a memória que as guerras em África deixaram nos edifícios transformados em ruínas, os auto-retratos incómodos de Robert Mafuta, a ironia mordaz do camaronês Barthélémy Toguo, que denuncia os líderes africanos e a sua exploração irresponsável dos recursos naturais.


Depois de percorrer a exposição, ainda queremos saber mais sobre aquele pastor que desenhava sombras e passou a fotografá-las (Saïdou Dicko, Burkina Faso), sobre "Miss Divine" e a homossexualidade na África do Sul (Zanele Muholi), sobre o rapaz de Ramallah que tem de percorrer, clandestino, os 14 quilómetros que o separam da namorada que vive em Jersualém Leste, cartão postal da ocupação dos territórios palestinianos que Bouchra Khalili testemunhou.


Jornalista Lucinda Canelas, in jornal "Público" de 11 de maio de 2011.




Fotografia: Saïdou Dicko (Burkina Faso), Le voleur d’ombres, 2005-2009


Galerias de Exposições Temporárias da Sede da Fundação Gulbenkian.


Patente ao público até dia 28 de Agosto de 2011.

2 comentários:

♥ κєκєl ♥ disse...

Bom dia...

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