quarta-feira, fevereiro 14, 2007



Coimbra nos primórdios da photographia


AlexandreRamires




No mundo actual vivemos inundados de imagens, de tal modo banalizadas que deixamos de lhes prestar atenção e valorizar algumas delas. São por si documentos que nos mostram as memórias de tempos e lugares que se metamorfosearam para além do reconhecimento. Vegetam esquecidas à beira da destruição e do desaparecimento irremediável. Daqui a necessidade da sua mostra e partilha com vista à sua reposição no lugar devido que é o imaginário colectivo das comunidades e dos cidadãos
Tentamos como método, exemplificar com imagens fotográficas de Coimbra como o cruzamento destas com várias fontes documentais podem fazer recuperar algumas memórias que apenas reconhecíamos através de textos de jornais e de livros da época em que a fotografia ia fazendo o seu aparecimento.
Os primeiros contactos de Coimbra com as imagens obtidas por acção da luz terão surgido logo após a sua descoberta por intermédio de publicações que a anunciavam e explicavam, nomeadamente através de literatura cientifica que chegava de França e Inglaterra como o Manuel Complet de Galvanoplastie et Daguerreotypie ou o Edinburgh Philosofical Journal que existem na biblioteca pessoal do lente de Philosophia Antonino Vidal, para além de artigos publicados em revistas como o Panorama, a Revista Litterária ou o El Instructor, ou em manuais de Física e Química. Aí se ensinavam e descreviam quais os procedimentos para se poderem obter imagens com o auxílio da luz, de produtos químicos e câmaras para as várias operações necessárias: quer para o processo de Fox-Talbot, do papel negativo ( calótipo ), a partir dos quais se obtinham provas positivas em papel salgado, quer para o processo do daguerreótipo, das imagens únicas obtidas em espelhos de prata. Também. pelos ecos da passagem por Lisboa da expedição didáctica e scientifica do navio escola “ Orientale “, cujo capitão Augustin Lucas, o operador de daguerreótipo Louis Compte e comitiva terão sido recebidos pela Rainha Dª Maria II, a quem se apresentaram na semana de 7 a 15 de Outubro de 1839, as novidades do physionotypo ( outra invenção cujo inventor Frédéric Sauvage, viajava no Orientale, e que permitia a obtenção de esculturas com rapidez pelo recurso a um feixe de agulhas que delineavam um molde ) e do daguerreótipo, cerca de dois meses após o anúncio da sua descoberta na Academia das Ciências Francesa..
No Museu de Física da Universidade de Coimbra existem as câmaras com que se obtinham calótipos e daguerreótipos, nomeadamente uma “ratoeira” para calótipos, uma câmara escura e outra de revelação a vapores de mercúrio para daguerreótipo.
Por Coimbra passaram, nos inícios dos anos quarenta do século XIX, viajantes que utilizaram o daguerreótipo para servirem de base a litografias, como William Barclay, que também foi o autor de um dos daguerreótipos mais antigos feitos em Portugal, trata-se do retrato de Rodrigo da Fonseca Magalhães e a ele oferecido a 2 de Outubro de 1841, e do Álbum “ Le Portugal pittoresque et architectural dessiné d’aprés nature “, publicado em Paris em 1846, que era acompanhado de 13 litografias.
Lentes da Universidade houve que acompanharam a novidade e adquiriram os equipamentos necessários para os laboratórios que dirigiam, como Luís Ferreira Pimentel e António Sanches Goulão na Física, Joaquim Augusto Simões de Carvalho na Química, Antonino Vidal e Júlio Henriques na Botânica, Rodrigo Sousa Pinto e Luis Albano na Astronomia, António dos Santos Viegas e Jacinto António de Sousa na Geofísica, e Costa Simões, Augusto Rocha e Henrique Teixeira Bastos na Medicina.
A 14 de Maio de 1842 o director do Gabinete de Física Luís Ferreira Pímentel recebe a encomenda de instrumentos científicos que tinha feito a J. Orcel, livreiro instalado em Coimbra, que incluía um “Daguerreotype perfectionné avec miroir parallèle pour redresser les objects” com 12 placas. Este aparelho terá sido usado para a obtenção de cinco daguerreótipos : 4 do Paço das Escolas e uma vista para Stª Clara. Existe ainda um outro daguerreótipo muito ténue que parece resultar de uma tentativa para obter uma imagem do interior da Biblioteca Joanina.
A partir de meados da década de quarenta Joaquim Augusto Simões de Carvalho, ensinava o daguerreótipo nas suas Lições de Phylosophia Chymica, concretamente na 15ªlição.
Nos anos seguintes, fotógrafos itinerantes faziam a sua aparição, instalando-se por poucas semanas, como Corentin & Newman em 1852, Mr Dubois em 1855, J. Plessix em 1856, J. S. Silva em 1857, Gustave de Beaucorps em 1858, e Louis Monnet em 1859. O primeiro a instalar-se em de forma permanente foi António da Conceição Mattos em 1857, seguindo-se Bertrand Dutresch em 1860, Mello Bastos e Montenegro também em 1860 e J. Cortès em 1861.
Com o fito de propagandear a salvaguarda do Património Histórico e Arquitectónico, Possidónio da Silva, fundador da Associação de Arqueólogos Portugueses, fotografou Coimbra utilizando como negativo papel encerado, para a sua “ Revista Pittoresca e Descritiva de Portugal “
Também o fizeram amadores com posses e gosto sofisticado como Antero Frederico de Seabra no final dos anos 1850 e princípios de 1860 e Carlos Relvas a partir de meados dos anos 60.
Ainda por cá passaram fotógrafos estrangeiros em expedições fotográficas com motivações científicas, como Thurston Thompson do Museu de South Kensington em Setembro de1866, ou com intuitos de comercialização internacional das imagens de lugares que se tornavam acessíveis pela chegada do Caminho de Ferro, como Ferrier & Soulier em 1867 e Jean Laurent em 1869.
Mas por cá já estavam eruditos e estudiosos de Coimbra que usavam a fotografia, colada nas suas publicações, como Augusto Mendes Simões de Castro que, entre 1869 e 1873, dirigiu o Panorama Photográphico de Portugal.
Coimbra contou ainda com uma abundante produção de retratos em formato carte de visite, cultivada pelos estudantes que os partilhavam por colegas, família e amigos, dando aso a que se constituíssem álbuns com cursos inteiros, facilmente identificáveis pelo recurso aos Anuários da Universidade e às chancelas dos fotógrafos que iam mudando ao longo dos anos, permitindo uma datação rigorosa.
As imagens de espaços alterados que ilustram este artigo são redescobertas que à partida não conseguíamos antever, são achados de peças de um puzzle que respira um sentido de eternidade, com passado, presente e futuro, recuperando o que parecia irremediavelmente esquecido, a partir do qual se podem ler os pequenos detalhes, verificar o seu tempo e lugar, revelando novas pistas para outros saberes.
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Portagem vista do meio da Ponte de Pedra, c.1860, pormenor de estereoscopia da autoria de Antero Frederico de Seabra, da colecção de Alexandre Ramires.
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Túmulo de D. Afonso Henriques, 4 de Junho de 1893, platínotipia da autoria de um turista inglês, da colecção de Nuno Borges Araújo (reparar no portal ao lado do túmulo que será substituído com o restauro dos anos noventa do séc. XIX)
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Interior da Sé Velha, c.1880, albumina de autor desconhecido da colecção de Alexandre Ramires (reparar no tecto com motivos árabes, nos azulejos, nas colunas, no órgão e na talha dourada ao fundo ladeando o altar que desapareceram no restauro feito por António Augusto Gonçalves )
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1 comentário:

catarina disse...

Bom dia,
Dado o interesse dos artigos publicados no vosso blog, gostaria de receber um aviso acerca das novas entradas. será possível?