"O Império Invisível" / "เอ็มไพร์ที่มองไม่เห็น"ของการถ่ายภาพโปรตุเกสในประเทศไทย
Por ocasião do lançamento da revista anual “XXI, Ter Opinião”, publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e depois de ter lido o artigo “Crise, crença e criação” escrito pelo Professor Jorge Calado no primeiro número da revista, fiquei a pensar na citação que fez de Winston Churchil e que nos recorda que, criticado por gastar dinheiro no apoio às artes, terá respondido: “Mas não é para salvar a cultura que estamos em guerra?” Os períodos de crise são favoráveis à criação artística e científica? O artigo responde à pergunta a que já me tinha respondido Jorge Calado – depende daqueles que nos governam nessas alturas.
Neste preciso momento Portugal está em crise, esta é a nossa guerra. Não se trata de uma guerra convencional de trincheiras ou de bombardeamentos aéreos. É uma guerra de valores, interesses económicos, jogos de poder e de influência; tempo inquieto de decisões inadiáveis, com danos colaterais de dimensões imprevisíveis que vão incidir no desemprego, na fome e na miséria das populações. Uma guerra para onde os portugueses foram arrastados pela “Europa Unida”, da qual fazem parte e a ela conduzidos pelos seus governantes. Uma guerra que não se confina a Portugal e nem se limita ao velho continente. Mesmo assim, os responsáveis políticos pela condução e planificação cultural, na atual situação económica que Portugal atravessa, também eles, têm que ser criativos, não podem reduzir a sua ação apenas a uma economia de gastos e conduzir o país a um vazio cultural inaceitável.
Nessa mesma noite acabaria por ficar à conversa com o Professor. Falámos do que os dois gostamos muito, da fotografia, disto e daquilo, coisas que a poucos interessa. Jorge Calado acabaria por me contar que alguém numa universidade em Camberra pretendia informações sobre os fotógrafos do século XIX na Ásia, mais concretamente na Ásia banhada pelo oceano pacífico. Nem de propósito, pois o meu irmão, Miguel Castelo-Branco, estava a trabalhar na exposição “Das Partes do Sião”, que integra as Comemorações dos 500.º aniversário das relações Luso-Tailandesas. Eu tinha adquirido recentemente para a minha coleção uma quantidade considerável de fotografias da autoria de Francisco Chit e Joaquim António, quiçá os maiores expoentes da história da fotografia no Sião. Tudo parecia conjugar-se sem que nada tivesse sido programado. Algumas das fotografias que fazem parte dessa aquisição (O retrato do Rei Chulalongkorn, 1873 feito por Francisco Chit; os “protegidos chineses” fotografados por Joaquim António frente ao consulado português em Bangkok aquando do aniversário do Rei D. Carlos em 1899 e um grupo de músicos da Sociedade Philarmonica de Bangkok em 1900 onde identificámos o fotógrafo Joaquim António) acabariam por figurar na exposição “Das Partes do Sião”, na Biblioteca Nacional de Portugal e que recomendo ser visitada até dia 18 de Fevereiro de 2012. São estes os momentos em que podemos reencontrar aliados que são fruto da nossa relação com os povos e as nações em outras alturas da história.
Segunda coroação do Rei Chulalongkon, em Outubro de 1873, Sentado com regalia (coroa, ceptro, sandálias, caixa de bétele, escarrador, incenso...). Fotografia de Francis Chit (Khun Sunthom Sathitsalak), 1830-1891. Papel albuminado colado sobre cartão, dimensões: 26,3 x 22 cm.
Fotografia de Francis Chit ca. 1869. Papel albuminado colado sobre cartão, dimensões: 23 x 18 cm.
No catálogo da exposição podemos ler sobre a Época de Ouro dos Protukét do Sião: “Houve alguém que um dia se referiu a um «Império Sombra» português localizado a Oriente do Cabo da Boa Esperança. Outro Investigador chamou-lhe «Império Informal». Não havia sido nem comprado, conquistado ou financiado por Goa ou Lisboa, mas fora-se povoando de forma pacífica por soldados retirados do serviço activo, bem como por fugitivos. Casaram, assentaram e ficaram”. Miguel Castelo-Branco chama-lhe «Império Invisível», esclarecendo que “estava por todo o lado e em local algum, nem era entendido como tal nem pelos seus membros nem pelos povos a que se acolhiam, mas que, no entanto, funcionava como uma poderosa rede clientelar, de afectos e defesa de uma certa ideia de fraternidade universal muito parecida com a cultura de resistência, teimosa mas inaudível, da diáspora judaica. Porém, ao contrário de judeus e arménios, que se encontravam um pouco por todo o Oriente tocado pelas rotas comerciais árabes e persas, as lusotopias mestiças identificavam-se com um estado presente no continente (Portugal), ligando-se-lhe por laços, vagos mas poderosos de lealdade cultural, linguística, mas sobretudo religiosa.”
Sobre as imagens do Sião nos séculos XIX e inicio do XX, atrevo-me a afirmar que, no que diz respeito à história da fotografia no mundo, também existe um “Império Invisível”. No mesmo catálogo “Das Partes do Sião”, Miguel Castelo-Branco escreve sobre Francisco Chit e Joaquim António, fotógrafos:
Autoretrato de Luang Akani Naruemitr, aliás Francis Chit quando era ainda Khun Sunthorn Satisluksana, títulos que lhe foram concedidos por Rama IV e Rama V.
“O primeiro fotógrafo profissional do Sião foi um Protukét, filho de Teng, chinês católico casado com uma Protukét de Thonburi, Francisco Chit (1830-1891) estudou na escola do palácio. O Rei Mongkut dele fez fotógrafo oficial, concedendo-lhe o título de Khun Suthorn Satisalak É possível que as primícias do jovem Francisco tivessem sido estimuladas ou por um padre da paróquia de santa Cruz de Thonburi – Larnaudie, um entusiasta da fotografia. Francisco recebia diariamente entre as sete e as onze horas da manhã, aproveitando a luz natural que coava pela clarabóia do estúdio, oferecendo aos clientes fotos em formato carte de visite ou cabinet, coladas sobre cartões de cor rocha, verde ou preta. Dava, porém, preferência a fotos de exteriores, escolhendo o Ananta Samakon, nas cercanias do palácio real ou Bang Pa-In, residência de Verão do Rei, para explorar as potencialidades da luz solar. Ao longo de dois reinados que serviu como fotógrafo oficial, fotografou vistas das mais importantes cidades do reino, a arquitectura monumental da capital e a sua transformação. Acompanhou o jovem Rei Chulalongkorn na visita a Singapura e às Índias Orientais Holandesas. Francisco sabia negociar e cultivava com grande desembaraço as novas técnicas da publicidade. Adaptou o nome de baptismo, dando-lhe a ressonância cosmopolita de Francis e anunciava com frequência nas páginas do Siam Mercantile Gazette, no Bangkok Times, Bangkok Summary e Bangkok Recorder – jornais em língua inglesa – bem como na imprensa em língua thai. Em Janeiro de 1865, nas páginas do Bangkok Recorder [«Francis Chit», in The Bangkok Recorder, 14 January 1865, p.6.] apresentava-se como artista de grande potencial, habilitado para tirar fotografias de todos os formatos e possuidor de port-folio com vistas de Bangkok, cenas campestres, edifícios públicos, templos, palácios e figuras destacadas das hierarquias civil e religiosa do país. Para marcar os seus produtos usava selos da sua autoria: Francis Chit Bangkok, F. Chit, F. Chit & Son, by Appointment Photographer to H. M. e, depois, Khoom Soondr Sadislack [...].
Selo de Francis Chit no verso de uma carte-de-visite
Como bom homem de negócios, Francisco Chit sabia prever o futuro e investiu na família. Do seu primeiro casamento, nasceram quatro filhos, dois dos quais seguiram as pisadas do pai. Tong Dee, que herdou a empresa de Francisco, era um homem de talento. Foi o primeiro siamês a receber formação técnica e artística na Alemanha, onde passou quatro anos como aluno aprendiz de Bernhard Kindermann Ao regressar ao Sião, aprofundou a parceria com o pai e foi-se lentamente apossando da atividade da empresa. Rama V fê-lo Khun Chaya Sathisakon. Ainda do primeiro casamento, uma outra vocação. A sua filha Soi era, também, aficionada da fotografia e explorou com sagacidade a sua condição de mulher. A Cidade Interior – isto é, o gineceu – estava vedada a homens, pelo que Soi ali se introduziu como artista de fotografia, respondendo à febre pelas imagens que contagiava a alta sociedade siamesa. Quando Rama V visitou a Europa, em 1893, a Rainha Saovabha Bongsri ocupou a regência durante a ausência do seu real esposo. Para muitos actos a que presidia na condição de regente, requereu os trabalhos de Soi. De um segundo casamento, Francisco teve um filho chamado Tam, que não foi apenas fotógrafo como o pai, mas também cineasta. Nai Tam teve um filho, igualmente fotógrafo profissional e a sua linhagem familiar e artística prolongou-se até finais do século XX.”
Musicos, Bangkok, postal n.º 457 a partir de fotografia de Joaquim António ca. 1902.
“Joaquim António nasceu em Macau e aí terá frequentado o ensino básico e, depois, recebido formação técnico-profissional em Hong Kong, onde obteve diploma de Construção de Obras Públicas e Minas. São obscuros os primeiros anos da sua estadia no Sião, mas sabe-se que trabalhou como desenhador técnico para o Departamento de Caminhos-de-Ferro. Depois, instalou-se por conta própria abrindo um estúdio na Charoen Krung – principal artéria comercial de Bangkok – aí recebendo os melhores clientes: os ricos e os influentes. Homens de negócios, os príncipes da parentela real e os diplomatas estrangeiros em missão de visita a Rama V pousavam para a sua objectiva, em frente de cenários de papelão e estuque ou nos exteriores. Fizera trabalhos para a legação britânica, que lhe valeram a admiração e carta de recomendação de Mr. Burnes – Chargé d’Affaires daquela representação diplomática – a um dos irmãos do Rei.
Convidado para fotógrafo da casa real, António expôs trabalhos seus na Exposição de Hanói (1902), já na condição de «fotógrafo do Rei do Sião», aí apresentando «uma bela colecção de fotografias que nos iniciam no charme da aldeia e dos campos siameses, dos tipos masculinos e femininos, interessantes pelo etnográfico, nos trabalhos empregues para a cultura do arroz, tão característico, mau grado as tendências progressivas de S. M. o Rei Chulalongkorn».
Dois anos volvidos, apresentou-se na Feira Mundial de Saint Louis (1904), onde foi premiado com uma medalha de prata pela «melhor colecção de vistas do Sião e países vizinhos».
Em 1904 lançou The 1904 Traveller’s Guide to Bangkok and Siam, o primeiro guia turístico publicado no Sião.” [vide Albert Ducarre – Mission à l’exposition de Hanói et en Extrême – Orient: [1902-1903]: rapport general. Paris: [s.n.], 1903, p.65. Charlton Bristow Perkins – Travels from the grandeurs of the West to mysteries of the East. San Francisco: The CB Perkins Company, 1909, p. 325.]
Parece que o Sião é um caso único e muito particular da fotografia no Sudeste-Asiático, onde destacamos a paixão pela fotografia por parte da família real e ao mesmo tempo uma forte resistência à intrusão de fotógrafos estrangeiros no território.
Pensamos que estes dois factores contribuíram para a importância de Francis Chit, e mais tarde de Joaquim António, na fotografia fixada na Tailândia, até porque, os dois terão sido uma espécie de "cronistas de imagem" da família real tailandesa durante pelo menos 60 anos em que a acompanharam em viagens, nos eventos oficiais e na corte.
Naquele tempo não havia photoshop e nem lipoaspiração. A mulher era perfeita assim mesmo.
Esta foto é única e também acaba de ser mostrada ao público pela primeira vez. Trata-se da única foto conhecida da estrela Elizabeth Taylor, então com 24 anos, posando nua. O dono é um colecionador privado... Esta foto foi um presente de noivado de Liz ao produtor Michael Tood, então seu terceiro marido. Ela foi feita por um de seus amigos mais íntimos, o ator e fotógrafo Roddy McDowall, que a convenceu a posar nua, quando ele a pediu em casamento, uma relação de curta duração, encerrada tragicamente , 13 meses depois do casamento, quando o avião particular de Tood sofreu um acidente durante uma tempestade sobre o Novo México.
Por ocasião do Centenário da Morte da Rainha Maria Pia (1848-1911), o Palácio Nacional da Ajuda e a Câmara Municipal de Cascais editam o livro Maria Pia de Sabóia, Rainha de Portugal. Fotobiografia, de Maria do Carmo Rebello de Andrade. O lançamento terá lugar no Palácio da Ajuda, dia 29 de Novembro, pelas 20h00, data de encerramento do ciclo de conferências "A Rainha Dona Maria Pia e o seu Tempo".
"Senhor Bobone, Sua Magestade a Rainha, minha Augusta Ama , me encarrega de lhe dizer que deseja mais duas duzias de retratos, uma duzia vestida de preto e outra duzia de manto real, mas recomenda a mesma Augusta Senhora que o cabelo deve ficar mais claro e não amassado, e em geral o tom da photographia mais claro." Carta do Duque de Loulé, Mordomo-mor da Rainha, a Augusto Bobone, fotógrafo da Casa Real.
Lançamento do livro / catálogo, concebido e realizado por Jorge Calado em homenagem a Gérard Castello-Lopes, apresentado por António Barreto no BES Arte & Finança.
Apresentação de António Barreto.
Aparições, de Gérard Castello-Lopes, por Jorge Calado
BES ART e Fundação Calouste Gulbenkian Lisboa, 22 Novembro de 2011
Saudações.
Jorge Calado. Emílio Rui Vilar e Ricardo Salgado, Danièle Castello-Lopes e filhos
Gostava também de poder dizer “Gérard”,
É um dia grande para a fotografia. Depois desta belíssima exposição, temos agora o livro que a completa e lhe vai sobreviver anos. As fotografias de um dos nossos maiores, algumas delas inéditas apesar de terem mais de 50 anos, arrumadas, expostas e comentadas por um dos nossos grandes, Jorge Calado, constituem um luxo de que não nos deveremos esquecer. Estamos a viver um momento raro na história da nossa fotografia, podem crer.
Poderia repetir o que escrevi no dia da morte de Gérard Castello-Lopes: “É seguramente o mais interessante fotógrafo português do século XX. Um dos mais, pelo menos”. Só que, ao reler, me dei conta de um erro. Ou de uma redução injusta e involuntária. Qual o significado do termo português? Se estamos apenas a falar de uma nacionalidade, de uma terra de origem familiar ou de um poiso, ainda se aceita. Mesmo se Gérard, a seguir esses critérios à letra, não era realmente, ou não era apenas um português... Mas enfim, digamos que era um dos nossos. O problema é o da acepção exacta do termo “fotógrafo português”. Esse foi o meu erro.
Apesar de sinais de identidade evidentes em algumas das suas fotografias (as pedras da calçada, certas igrejas, a roupa a secar, as fachadas decadentes dos edifícios...), sinais detectados sobretudo por portugueses, pois claro, nada me fará dizer que Gérard é um fotógrafo representativo do que poderá ser a “fotografia portuguesa”, conceito aliás discutível, eventualmente horrendo. A boa fotografia, a melhor fotografia é sempre universal! Gérard fotografou, também, Portugal. Gérard fotografou, como poucos, Lisboa, a Lisboa de O’Neil e alguns restos da Lisboa de Pessoa. Mas também fotografou o mundo, Paris e França, em particular. Situa-se no plano dos maiores, sobretudo europeus, do seu tempo. Descoberto e redescoberto tardiamente, podemos colocá-lo ao lado dos grandes fotógrafos deste continente, em particular dos seus contemporâneos dos anos cinquenta e sessenta. Com esta ressalva, não me importo de dizer que Gérard Castello-Lopes é seguramente um dos mais importantes fotógrafos portugueses.
Esta apreciação leva-me logo a um ponto essencial que gostaria de sublinhar hoje. Por várias razões, de que Jorge Calado dá cabalmente conta na sua apresentação, Gérard foi pouco visto e conhecido no seu tempo. Só a partir dos anos oitenta, em primeiro lugar pela mão de António Sena e da sua galeria Ether (“Vale tudo menos tirar olhos”), começou a ser notado. Depois disso, Gérard ocupou um lugar que era o seu pelo mérito e pela sua excepcional qualidade e sensibilidade. Mas Castello-Lopes era um homem especial, era um amador, era tímido, não seguia escolas nem capelas, tinha uma distância aristocrática ao mundo da comunicação... Além disso, era reservado, com estranhos sentimentos diante da sua própria obra. Cuidadoso e meticuloso, não queria deixar que esta seguisse vida autónoma. Hoje, sabemos que deixou dezenas de milhares de negativos, muitos inéditos, num acervo que talvez nunca tenha sido estudado como deve ser. Pelo que Jorge Calado nos diz, esta exposição e este livro estão limitados no âmbito: apenas estão presentes as imagens que existiam em casa dele e da Danièle, em impressão positiva, prontas a mostrar. A conclusão é simples e salta aos olhos: há muito a fazer, a estudar e inventariar, a catalogar e documentar, a imprimir, a publicar e expor. Além de que, com impressões actuais de diversa escala e dimensão, como ele próprio veio a descobrir e intuir, podemos ter ainda mais novidades. Felizes os países que se podem orgulhar de ter, ainda por investigar, um acervo destes, com o valor e o interesse que lhe podemos atribuir. Gostava de acrescentar também: felizes os países que têm interessados, instituições, tempo, gosto e recursos para tal empreendimento!
É muito tentador dizer que Gérard Castello-Lopes não era homem deste século. Deste, do XXº. Que tem algo do Renascimento. Ou das Luzes. Pela cultura, pela erudição e pela sucessão de actividades. Foi economista, gestor, diplomata, escritor, ensaísta, crítico, cineasta, jazzman, desportista, mergulhador e... fotógrafo. É como fotógrafo que será recordado. Tudo o que fez foi com o espírito do amador, o rigor do cientista e a dedicação do profissional. É verdade que o podemos colocar facilmente naqueles séculos em que as ciências, as artes e as humanidades se frequentavam e estabeleciam uma boa vizinhança. É verdade, mas é fácil. Pensando duas vezes, olhando para esta exposição que Jorge Calado organizou com esmero e significado e folheando minuciosamente este maravilhoso livro, a conclusão é outra: Gérard Castello-Lopes não tem século. Nunca ficou preso ao seu tempo. Mas ficou fiel às suas imagens. Nesta exposição e neste livro, a aguda ironia do seu curador colocou, lado a lado, fotografias que distam de dezenas de anos entre si, mas sobre as quais se poderá dizer que o seu autor fez a mesma fotografia vezes e vezes sem conta ao longo dos tempos. Vejam-se as pessoas fotografadas de costas, a roupa a secar, os espelhos de água, o abatimento dos idosos, o estranho olhar sério de crianças e adolescentes... Apesar das rupturas e mau grado as suas várias vidas, há um fio condutor, há um olhar que se mantém.
Este olhar que se mantém, esta maneira de ver tão sua, não dispensa influências e parecenças. Passeiam-se nestas páginas Cartier-Bresson, sobretudo, mas também Doisneau, Alvarez Bravo, Brassaï, Eugene Smith e Kertész. Aqui e ali, um ar de Walker Evans ou de Weston. E as que poderemos chamar as suas “fotografias francesas” dos anos 50 e que poderiam ter sido feitas por alguns dos acima referidos. Todos passam por aqui, Gérard passou por todos. Como os grandes pintores e fotógrafos, para não dizer os artistas em geral, soube compor, tirar ideias e receber inspirações. Mas soube também fazer a sua síntese e o seu género, apurar a sua linguagem e traçar o seu caminho. Nunca pertenceu aos seus mestres, aos que o ensinaram, nem aos que o inspiraram: cresceu e morreu livre. Como quase sempre, a liberdade é também solidão. Nunca quis deixar-se fechar em escola ou estética. Bem podia, na sua fase dita humanista dos anos cinquenta e sessenta, deixar-se navegar pelas ondas neo-realistas que traziam conforto e alguma companhia. Podia limitar-se a seguir o mestre Cartier-Bresson. Não fez uma coisa nem outra. Navegou pelas margens. Preferiu a liberdade. Gostava de tocar várias músicas. Repito-me: ainda há muito para ver e estudar e talvez mostrar e publicar... Não é possível dizer hoje que sabemos tudo de Gérard Castello-Lopes.
Ao contrário do nosso Curador, creio que Gérard teve várias vidas de fotógrafo. Talvez um só Gérard, mas várias vidas. Mesmo se traços e fios as ligam. Aliás, o próprio Jorge Calado, no seu texto, reconhece que houve pelo menos um renascimento. Esta exposição, tal como foi magistralmente organizada, tem programa. Ou antes, tem uma ideia forte: mostrar a continuidade e a coerência. Mas deixa-nos a incerteza do que está para além do que se vê. Percebo a cortês delicadeza do Jorge, que apenas quis mostrar as provas que Gérard, lui même, aprovara em seu tempo. E aquelas que ele deixou impressas e prontas. Mas a obra fica para além da morte. E o seu tempo virá... Insisto em que Gérard teve várias vidas de fotógrafo. Com estas “Aparições”, inicia-se mais uma. E não a última.
Conhecemo-nos tardiamente. Ele, já com sessenta. Eu, não muito longe. Já ele tinha recomeçado a fotografar e mostrado algumas provas. As primeiras imagens que eu tinha visto formavam um magnífico portfolio alentejano no livro do José Cutileiro “A Portuguese Rural Society”, publicado em Oxford, no princípio dos anos setenta. Vi depois a exposição da Éther, que me deslumbrara e tinha, a seguir, visto o seu primeiro livro a sério, “Perto da vista”. Encontrámo-nos por causa de uma breve recensão que eu escrevera para o Diário de Notícias. Um dia, no meio da rua, um carro parou desabridamente e dele se extraiu um longo senhor que nunca mais acabava de sair. Era o Gérard. Entre a rua e o passeio, apresentou-se. Depois disso, conhecemo-nos um pouco melhor. Sem intimidade, conversámos o bastante para eu ficar com admiração e respeito. Em casas de amigos, falávamos de tudo. No Grémio Literário, a fotografia ocupava-nos. Foi ali que, um dia, depois de uma dura discussão sobre a questão moral na fotografia, lhe disse: “Ó Gérard, você é um grand timide!”. Levantou-se, abriu ligeiramente os braços e retorquiu, com o sorriso de quem é apanhado: “Mais bien sûr”!
Nesta altura, eu ainda não tinha decidido para mim se Gérard era um poseur ou um tímido. Ele teorizava sobre a sua dificuldade em fotografar pessoas. Eu hesitava em aceitar os seus argumentos ou encontrar neles uma espécie de justificação luxuosa para uma relativa abstenção e um grande distanciamento. A evidência da sua timidez revelou-se então. Várias outras pessoas terão chegado à mesma conclusão. A timidez era uma maneira de sentir as dificuldades do acto de fotografar. É verdade que existe uma questão moral. Uma questão de moral. Fotografar alguém é sempre um problema. Fotografar um desconhecido é um enorme problema. Maior problema ainda é a utilização dessas imagens. Vários termos nos ocorrem a este propósito. Intrusão... Violação de privacidade... Atentado à intimidade... Uso indevido da identidade de outrem... Num tempo em que a chamada sociedade de informação ou de comunicação empurra as fronteiras morais para limites inaceitáveis, é sempre bom recordar os velhos princípios. E senti-los, coisa que Gérard me pareceu fazer com sinceridade.
O pior é o momento em que se faz a fotografia. Gesto, aliás, que, em várias línguas, se chama “disparar”. Não é pouco, nem é pacífico. E também se diz, pelo menos em português, “tirar o retrato”. Sublinho o “tirar”... Hoje, far-se-ão muitas dezenas ou centenas de milhões de fotografias por dia. Até já os telefones tiram fotografias, nesta que é uma aliança entre dois velhos rivais, a palavra e a imagem. Parece o gesto mais banal do mundo. Parece, mas não é. A questão moral está sempre lá. Com que direito eu fixo imagens de outros, momentos vividos por outras pessoas e identidades alheias? Com que legitimidade posso eu utilizar a vida de outro? Ainda hoje estou convencido de que foi esta questão moral que reforçou a sua timidez.
Quando ele me tentou explicar as razões e o modo da sua “segunda vida”, o principal argumento utilizado para se redefinir foi o da “intrusão” ou mesmo o da “agressão”. Foi a esse propósito que ele cunhou uma frase inesquecível: aproximar-se de alguém com uma câmara fotográfica é como usar luvas de boxe para conversar! Por isso, os objectos, a luz, as formas, as composições gráficas e os elementos de paisagem apareciam, agora, com muito mais frequência do que as pessoas em planos aproximados dos primeiros anos. É uma timidez cruzada de delicadeza. Chama-se a isso fazer cerimónia. Gérard fazia.
Talvez seja esta consciência moral que faz com que, nestas fotografias, o drama esteja ausente. Como ausentes estão também o sofrimento, a violência e a tragédia. E até a pobreza inevitável dos anos sessenta portugueses nos aparece debaixo de uma relativa doçura. Gérard não era fotógrafo cortesão, nem queria vender optimismo. Mas evitava a dor nas fotografias. O que só se explica por razões morais. É esse um dos traços mais interessantes da sua obra. Renunciou ou simplesmente não recorreu aos elementos mais procurados pela fotografia, a começar pelo jornalismo e pela reportagem. Na verdade, o sofrimento, a violência, a dor, a pobreza e a guerra são fotogénicos! Infelizmente. Custa a dizer. Mas é verdade. Há uma estética do sofrimento vorazmente cultivada por muitos profissionais, por editores e por órgãos de informação. A ponto de, pelo hábito, ficarmos indiferentes ao sofrimento e de esquecermos, pela forma, o conteúdo. Quem se incomoda hoje com os ventres inchados das crianças africanas a morrer de fome e doença? Ou com os restos de corpos depois de explosão de uma mina? Ou com os efeitos iconográficos da tortura, da violação, da droga, do crime, da miséria e da doença? À força de ver, ficamos indiferentes.
Gérard não foi atraído pelo sofrimento dos outros. Pela sua moral e porque nunca foi um fotógrafo engagé. Ou empenhado. Ou comprometido. Apesar do seu tempo, próprio a esse género. Mau grado não ter gostado do que viu, em França ou em Portugal, com a guerra, a devastação e as ditaduras. Não advogou causas com a sua fotografia, a não ser a da condição humana na sua forma mais poética. Fez melhor do que fotografia de combate ou fotografia com programa. Por isso as suas imagens duram mais do que as efémeras com intenção. Interessava-se pelo quotidiano e promovia o banal e o incidental a raridade.
Gérard foi um génio da encenação. Da encenação intuitiva. Da encenação natural, isto é, da colocação, em imagem, do que o mundo lhe dava, mas aproveitando sempre a ideia de encenação, de ligação especial entre os figurantes, de relação significativa entre estes e o meio ou a paisagem. As suas personagens na paisagem são pequenas obras de arte. Poderiam ter sido imaginadas previamente. Poderiam ter sido manipuladas ou combinadas, de tal modo elas nos parecem rigorosas e minuciosas. Mas creio que Gérard nunca o fez. Ele soube captar, não construiu ou não procedeu a montagem.
A discussão sobre a escala (a dimensão absoluta e relativa das suas imagens) foi a sua última e principal contribuição para a teoria da fotografia. Tive a sorte de assistir, no Porto, à sua catedrática conferência sobre o tema. Ali relembrou a novidade da grande dimensão de fotografias que nos habituámos a ver em pequeno formato. A diferença de escala pode ser a metamorfose do sentido. Aludiu à mudança de género e de natureza que se opera quando uma fotografia que se manuseia, que se vê com as mãos, se transforma num fresco que se observa e admira. Referiu-se à enorme humanidade de um olhar num rosto grande como uma parede. Ali percebi que todas as escalas são boas, não há leis nem dogmas. Todas as escalas são boas, desde que adequadas à imagem, ao local, à manifestação, às circunstâncias! A mesma fotografia pode ter várias vidas e vários sentidos conforme as circunstâncias.
Em certo sentido, esta reflexão leva-nos à questão da liberdade de criação. E da imaginação. O Gérard foi uma das duas pessoas que me ajudou a olhar para a fotografia com mais liberdade e menos fanatismo. Formatar as dimensões? Alterar o enquadramento? Imprimir de várias maneiras? Manipular a impressão? Recentrar? Recorrer ao digital? Eis pecados que, desde que com honestidade, deixaram de o ser. Em parte, graças a ele, quando me disse que as impressões ulteriores eram geralmente muito mais interessantes do que os famosos vintages. Comecei a perceber então que o dogma é coisa de fanáticos. Caminhei do mais estrito conservadorismo para uma atrevida liberdade... Mas não deixo de encontrar, nesses mesmos vintages, um encanto e uma curiosidade que constituem, em si, um valor.
Nesta exposição e neste livro, Jorge Calado escolheu, em maioria, vintages no formato em que Gérard os deixou. Foi uma opção assumida, tem as suas razões de ser. Porque é póstuma. Porque é a maior que jamais se fez. Porque tem muitas imagens inéditas. Porque o esforço de investigação de tudo o resto está ainda por fazer, mesmo se, ao que parece, Danièle já terá feito um apurado trabalho de ordenamento. E até porque já tivemos várias oportunidades de ver algumas destas imagens em tiragens contemporâneas e nunca tínhamos visto os vintages. O importante é considerar que todas podem ser autênticas, provas de época ou contemporâneas, vintages ou tiragens ulteriores. Podem ter valores de mercado diferentes, mas isso não altera o valor intrínseco, nem a qualidade, muito menos a autenticidade.
Já que falo do trabalho de Jorge Calado. Este é um dos homens que mais admiro em Portugal. Pela sua cultura e pela sua erudição. Pelo seu contributo para a nossa felicidade. E pela sua simpatia pessoal. Este ano foi, para ele, de monumental esforço. Para nós, de encanto espiritual. Antes deste livro, tivemos o “Haja Luz – Uma História da Química Através de Tudo”, maravilhosa enciclopédia intelectual, artística e científica. Agora, um dos mais belos livros de fotografia jamais publicados. Garanto-vos que é obra, publicar os dois no mesmo ano! Obrigado Jorge!
António Barreto, Lisboa 22 de Novembro de 2011 (texto proferido durante o lançamento do livro / catálogo)
António Barreto.
Intervenção de Ricardo Salgado, em representação do Banco Espirito Santo.
Intervenção de Rui Vilar, em representação da Fundação Calouste Gulbenkian.
SESSÃO DE DIVULGAÇÃO SOBRE NORMALIZAÇÃO EM FOTOGRAFIA E ARTES VISUAIS
PROGRAMA
Normalização em Fotografia: Porquê e Para Quê?
Estado de Arte das Normas ISO sobre Fotografia
Normalização em Portugal : IPQ, IPF e Comissão CT174
Apresentação de Normas Portuguesas NP ISO já publicadas
Projectos futuros de Normalização em Fotografia.
PALESTRANTES: Equipa coordenada pelo Presidente da Comissão Técnica CT174, Dr. António Manuel Morais, com o apoio do QREN/POF/SIAC.
PÚBLICO ALVO: Técnicos dos Municípios afectos à Actividade Cultural e ao Arquivo, PME´s, Fotógrafos Profissionais e Amadores, Associações culturais, bem como Professores e outros Agentes do Ensino de Artes Visuais.
17 de Novembro LOCAL: Instalações do Centro Português de Fotografia (Sala do Tribunal, 2º piso)
Foi criada no dia 13 de Abril de 2007 a Associação Portuguesa de Photographia. Cem anos depois de ter sido fundada a sua antecessora, a Sociedade Portuguesa de Photographia.
No Cartório Nacional de Georgina Martins, em Lisboa, assinaram a escritura de fundação e legalização os seguintes doze sócios fundadores: Alexandre Ramires, Ângela Camila, António Barreto, António Faria, António Pedro Vicente, Carlos Miguel Fernandes, João Clode, João Loureiro, José Pessoa, Madalena Lello Colaço, Sérgio Gomes e Vitória Mesquita