domingo, novembro 01, 2009

J. Laurent e Portugal - Fotografia do século XIX

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“J. Laurent e Portugal – Fotografia do século XIX” é uma exposição organizada pela APPh. - Associação Portuguesa de Photographia e produzida pelo Centro Português de Fotografia, em parceria com a Torre do Tombo, ambos arquivos dependentes da DGARQ - Direcção Geral de Arquivos, integrando peças que pertencem a coleccionadores privados e a instituições oficiais.
A exposição procura divulgar o pleno dos trabalhos que J. Laurent fez em Portugal e tem como comissários Ângela Camila Castelo-Branco e Alexandre Ramires, sócios fundadores da APPh. e Carlos Teixidor, curador dos espólios fotográficos de Laurent depositados no Instituto do Património Cultural de Espanha - IPCE, no arquivo fotográfico Ruiz Vernacci, Madrid.
J. Laurent (1816-1886), nasceu em França e manteve sempre a sua nacionalidade de origem, apesar de ter residido em Madrid durante 43 anos, cidade em que morreu. Jean, ou Juan, assinava J. Laurent.
Em 1856, abriu em Madrid, na Rua de São Jerónimo n.º 39, um estúdio fotográfico. Foi o começo de uma aventura que acabaria no maior levantamento fotográfico da Península Ibérica no século XIX.
As fotografias expostas são, na sua maioria impressas em papel albuminado, feitas a partir de negativos em vidro cujo processo de obtenção foi o colódio húmido.
A exposição apresenta-se distribuída por várias enxovias do edifício da Cadeia da Relação do Porto. Assim, temos na enxovia do Senhor de Matosinhos a parte dedicada aos monumentos e paisagens e às vistas estereoscópicas que Laurent efectuou em Portugal.
Na enxovia de Santa Teresa podemos ver os trabalhos que dizem respeito às séries A (pintura) e B (escultura) dedicadas às obras de arte que Laurent fotografou em Portugal e Espanha, em instituições e museus, especialmente na Academia Real de Lisboa, na Academia Real de Belas Artes portuguesa, no Museu do Prado, em Madrid, ou no Museu de Belas Artes de Sevilha.
A enxovia de Santa Ana é dedicada ao retrato; aí podem ser vistas imagens dos Reis D. Fernando II e D. Luís, do Príncipe D. Carlos e do Infante D. Afonso, todas obtidas em Portugal. Nesta sala, podemos ver também fotografias da família real espanhola, bem como outras figuras da política do país vizinho, como, por exemplo, a fotografia do Governo Provisório, constituído após a revolução de Setembro de 1868 – iniciada em Cádiz pelo General Prim -, além de algumas carte de visite com os membros desse mesmo Primeiro Governo Provisório.
A enxovia de Santo António é dedicada a paisagens, vistas urbanas, arquitectura e obras públicas em Espanha e contém elementos biográficos do autor, numa síntese que contém os aspectos mais relevantes da sua obra.
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J. Laurent na ex- Cadeia e Tribunal da Relação do Porto
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J. Laurent
Vistas e monumentos

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O número das fotografias de paisagens e monumentos que Laurent fez de Portugal situa-se entre a Basílica da Estrela n.º 800 e a Torre do Aqueduto de Évora n.º 885 da série “C”. As obras de arte de pintura e escultura têm outra numeração dentro de outras séries: “A” para a pintura, “B” para a escultura e uma série “S” reservada às estereoscopias. Segundo Carlos Teixidor, Laurent terá feito cerca de 450 negativos em Portugal, correspondentes a cerca de 200 títulos diferentes.
Encontram-se actualmente em depósito em Madrid no “Instituto do Património Cultural de Espanha”, no arquivo fotográfico Ruiz Vernacci, 230 negativos de vidro em colódio sobre Portugal: 12 no excepcional formato panorâmico de 27x60 centímetros cada parte, 143 no formato 27x36 cm e as 75 placas restantes estereoscópicas em 13x18 centímetros.
As vistas e monumentos que Laurent fez em Portugal devem ser apreciados tendo em atenção a rede ferroviária dos caminhos-de-ferro então existente no nosso território, iniciada que foi em 1856 com o troço entre Lisboa e o Carregado. Dava, pois, os primeiros passos, quando em 1869 J. Laurent fotografou Portugal. O artista deslocava-se de comboio devido à quantidade de material necessário para a obtenção dos negativos em vidro de colódio húmido que tinham de ser sensibilizados e revelados no local onde se fotografava.
Laurent fotografou em Setúbal, cidade a que se chegava pela linha do Sado, aberta em 1861, num troço a partir do Pinhal Novo. Fotografou em Évora onde as locomotivas chegaram em 1863 pela linha do Sul, fazendo a ligação à fronteira espanhola pela Linha de Leste, no mesmo ano em que a rede ferroviária chegou a Badajoz e aguardava ligação a Madrid.
Em 1867, o governo autoriza a construção da linha do Douro, que só ficará concluída em 1887; em 1875, circulará o primeiro comboio a norte do Douro, enquanto a ligação ferroviária entre Lisboa e o Porto só foi possível em 1877, depois da construção da Ponte D. Maria Pia. De facto, em algumas localidades, não terá sido possível a J. Laurent chegar através da ferrovia; assim acontecia em Braga onde o comboio ainda não tinha chegado em 1869 ou em Sintra onde só chega em 1873. Mas tal não foi impedimento para que o fotógrafo se deslocasse a Braga, nem tão pouco a Sintra e aos Palácios da Pena e de Monserrat, no alto da serra.
Segundo Carlos Teixidor, Évora pode ter sido a última cidade portuguesa a ser fotografada por Laurent; se tivermos em conta a numeração nos seus catálogos, verificamos que, imediatamente a seguir ao n.º 875, o Aqueduto de Évora, segue-se o n.º 886 que já corresponde à cidade de Cáceres.
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Mosteiro dos Jerónimos, J. Laurent, 1869. Colecção João José P. Edward Clode.
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Mosteiro dos Jerónimos, J. Laurent, 1869. Colecção Alexandre Ramires.

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Panorâmica do Porto, J. Laurent, 1869. Colecção Manuel Magalhães.

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Igreja de Sta. Cruz, Coimbra. J. Laurent 1869. Colecção Alexandre Ramires.

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Universidade de Coimbra, J. Laurent, 1869. Colecção António Barreto.

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Igreja Nossa Senhora da Oliveira, Guimarães, J. Laurent, 1869. Colecção Nuno Borges de Araújo.
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J. Laurent
Galeria de retratos

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No início da sua actividade em 1856, quando abriu estúdio na Rua de São Jerónimo, n.º 39, em Madrid, o retrato era a principal fonte de receita de J. Laurent.
“J. Laurent / Reproducciones de todas clases y retratos todos los dias excepto los festivos / además poseen retratos de la família Real, así como la colección de los personajes más célebres de España.”, lia-se no cabeçalho das facturas da Casa Laurent.
Em 1861, edita o seu primeiro catálogo: o “Catálogo de los retratos que se venden en casa de J. Laurent” lista 180 títulos, de personalidades a começar pela Rainha Isabel II e seus familiares e 78 reproduções de quadros do Museu do Prado. Em 1861, Laurent já ostentava nas suas fotografias as armas da família real espanhola e a legenda “Fotógrafo de S. M. a Rainha”.
Laurent começou por ser um retratista. No dia 30 de Abril de 1866 na publicação “La Lumière” lia-se sobre a descoberta de Martinez-Sanchez e de Laurent, o papel leptográfico. Uma descoberta que anunciava o fim das albuminas e o inicio da comercialização de papeis previamente sensibilizados. Alguns dos retratos da casa Laurent foram impressos em papel leptográfico.
Quando Isabel II foi destronada em 1868, Laurent apaga do seu carro laboratório todas as referências à monarquia e rasura em todos os cartões a designação de fotógrafo de S. M. a Rainha de Espanha. Fotografa, então, o Primeiro Governo Provisório constituído depois da revolução de Setembro de 1868 e alguns dos seus membros e intervenientes: o General Badomero Espartero, Luis Zorrilla, Almirante Topete, Rivero e Madoz.
No ano seguinte, 1869, Laurent viaja para Portugal, onde fotografa a família real de Bragança, os Reis D. Fernando II e D. Luís I, o Príncipe D. Carlos e o Infante D. Afonso.
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Princípe Real D. Carlos e o Infante D. Afonso no Palácio Real da Ajuda, 1869.Pode tratar-se de uma impressão em papel leptográficoReprodução em tamanho real (160x130 cm.), da fotografia assinada por Laurent quando esteve em Lisboa e cujo original se encontra no Palácio Nacional da Ajuda. Inv. F64334
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D. Isabel II, rainha de Espanha, 1860s. Papel albuminado colado em CDV. Colecção Nuno Borges de Araújo.
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Retrato do General Leopoldo O´Donnell y Jorris (1809-1867), 1.º Duque de Tetuán. Grande formato, Papel albuminádo. Colecção Nuno Borges Araújo.
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Governo Provisório constituido depois da Revolução de Setembro de 1868. Albumina de J. Laurent, prova a partir de negativo em vidro de colódio húmido, Setembro 1868. Da esquerda para a direita: Figuerola, Ruiz Zorrilla, Sagasta, Prim,Serrano, Topete, López de Ayala, Ortiz e Lorenzana. Colecção Alcídia e Luis Viegas Belchior. Aquisição com o patrocínio do Banco BPI e de Hipermercados Continente SA Colecção Nacional de Fotografia 2458 LXXVI – CPF/DGARQ/MC
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Francisco Pi y Margall (1824-1901) Albumina colada em CDV feita a partir de negativo em vidro de colódio húmido. Colecção António Barreto.

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Existem numerosos retratos da família real portuguesa, segundo Ângela Camila Castelo-Branco alguns destes retratos são de tal forma informais que, dificilmente teriam sido obtidos com um propósito oficial e tão pouco, por essa razão, poderiam ter sido efectuados sem a presença de Laurent. O mobiliário que aparece nas fotografias da família real portuguesa é mobiliário do Palácio Nacional da Ajuda – que ainda hoje lá se encontra. Para além disso, existe no Palácio Nacional da Ajuda uma peça única e de excepcional interesse: a fotografia em tamanho natural 160x130 cm do príncipe D. Carlos com o irmão o infante D. Afonso, na então residência da família real portuguesa, que está assinada pela mão do fotógrafo Laurent, o que sugere a sua presença em Lisboa. Esta peça de excepcional raridade ganhava em ser restaurada com a maior brevidade, dado o seu estado de conservação.
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D. Fernando. Formato Cartão Cabinet ca. 1869. J. Laurent. Colecção Manuel Magalhães.

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D. Luis fotografado por J. Laurent, 1869. Colecção
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Rei D. Luís – farda marinha. Albumina, prova a partir de negativo em vidro de colódio húmido, ca. 1869. Palácio Nacional da Ajuda. Inv. F 60044

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Príncipe Real D. Carlos – com livro na mão, autoria de J Laurent, (PNA Inv. F 61291)

Infante D. Afonso de Bragança. Albumina Cartão Cabinet feita a partir de um negativo em vidro de colódio húmido, ca. 1869. Colecção

J. Laurent
A fotografia de obras de arte.

J. Laurent fotografou inúmeras obras de arte do Museu do Prado, da Real Academia de Belas Artes de São Fernando, da Colecção de Lázaro Galdiano e do Museu de Belas Artes de Sevilha. Em Portugal, fotografou obras de ourivesaria, pintura e escultura, em várias instituições. No Palácio Real da Ajuda, fotografou objectos pessoais pertencentes a D. Luís, a D. Fernando e ao Marquez de Souza-Holstein; no então Palácio Real de Belém, fotografou o Coche de Gala do Rei D. João V.
Fotografou pintura e escultura na Academia Real de Belas-Artes de Lisboa e na Academia Real de Lisboa, hoje Academia de Ciências de Lisboa, onde se encontravam as obras do Museu Mainense do extinto Convento Nossa Senhora de Jesus. No catálogo de 1879 estão nomes como os de Josefa Ayalla (Josefa d’Óbidos), F. Vieira de Matos (Vieira Lusitano), Amaro do Vale, Pedro Alexandrino e Domingos António de Sequeira. Fotografou, ainda, a Custódia de Belém e a Cruz de D. Sancho I e, na Biblioteca de Évora, um baixo-relevo em ardósia que representa uma contenda entre judeus e fariseus e o tríptico de Limoges atribuído a Nardon Pénicaud (1470-c.1543), e que terá pertencido a Francisco I, rei de França, e depois ao imperador Carlos V. Infelizmente, as albuminas de Laurent reproduzindo obras da pintura e escultura portuguesas são hoje muito raras.
Sousa Viterbo (1843-1910) dizia: “[...] é de urgente e inadiável necessidade, entrar com desassombro na elaboração do inventário dos objectos artísticos disseminados por todo o país[...]”. Lamentavelmente, no que diz respeito à fotografia como obra, a preocupação de Sousa Viterbo mantém-se actual, devendo notar-se que o trabalho de Laurent em Portugal revela-se da maior importância para a inventariação e divulgação qualificada da imagem do património que o próprio fotografou em Portugal. Algumas das fotografias feitas em Portugal foram passadas a gravura e publicadas em muitas revistas portuguesas e internacionais.


Academia Real de Lisboa.- 221. - Cálice em prata dourada. Final do século XVI. Albumina, prova a partir de negativo em vidro de colódio húmido, ca.1869. Colecção Nuno Borges de Araújo.




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Granada. (Alhambra). 1155. Capitel da Sala dos Embaixadores.(detalhe escala de 1m.). Albumina, prova a partir de negativo em vidro de colódio húmido, 1871. Colecção Nuno Borges de Araújo.

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La Cartuja (BURGOS), Tumulo dos Reis D. João e .Isabel de Portugal. Albumina, a partir de negativo em vidro de colódio húmido,cat. Laurent 1879. [carimbo seco de J. Lacoste]Colecção Nuno Borges de Araújo

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La Cartuja. (BURGOS).-1577. Tumulo dos Reis D. João e .Isabel de Portugal. Albumina, a partir de um negativo em colódio húmido, ca. 1865 [carimbo seco de J. Lacoste]. Colecção Manuel Magalhães.

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La Cartuja (BURGOS). -390- Estátua de São Bruno do escultor português Manuel Pereira (1588-1683). Carimbo seco de J. Lacoste. Albumina, a partir de negativo em vidro de colódio húmido, cat. Laurent 1879. Colecção Nuno Borges Araújo.



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A Justiça. Tapeçaria do Palácio de Madrid.-515. - Les Vices et les Vertus.- "Dieu récompense par la Noblesse éternelle celui dont le principal soin est de rendre un culte pieux à l'Être Suprême". Albumina, a partir de um negativo em colódio húmido, cat. Laurent 1879. Colecção Nuno Borges de Araújo.

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Academia Real de Lisboa. - 733.- Cornelius de Lyon – Retrato de Vasco da Gama. Albumina, prova a partir de negativo em vidro de colódio húmido, ca.1869. Colecção Nuno Borges de Araújo


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J. Laurent. Carte de visit, colecção Juan Naranjo

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J. Laurent (1816-1886)
Jean Bautiste Laurent et Minier nasceu em 1816, em Garchizy, uma aldeia francesa no departamento de Nièvre. Filho de Jean Laurent (1731-1818) e de Cláudia Minier, de quem se desconhece a idade, sabendo-se apenas que era bastante mais jovem do que o marido.
A partir de 1843, estabelece-se em Madrid exercendo, até 1855, a profissão de cartonador, fabricante de papéis e caixas de luxo para guloseimas e outros usos. Especializa-se também como fabricante de papéis para encadernações.
Em 1856, abre um estúdio fotográfico na Rua de São Jerónimo, n.º 39, em Madrid, onde retrata personalidades de Espanha. Em 1857 começa a fotografar, em grande formato e estereoscopia, sobretudo vistas e panorâmicas de Madrid. A Companhia de Caminhos-de-ferro de Espanha (MZA) oferece à Rainha Isabel II de Espanha um álbum com fotografias que, em 1858, J. Laurent fez da construção do troço ferroviário Madrid / Alicante. Posteriormente, fotografou a construção de outras ferrovias, tais como: Madrid / Zaragoza, Tudela / Bilbao e Medina del Campo / Zamora. Foram os caminhos-de-ferro que permitiram a J. Laurent deslocar-se por toda a Península Ibérica com o seu equipamento: câmaras, tripés, placas em vidro, químicos, etc., e, ainda o seu carro laboratório, necessário para a sensibilização e revelação dos negativos em colódio húmido.
Foi, desde 1859, sócio da Sociedade Francesa de fotografia e em 1861 passa a designar-se como Fotógrafo de S. M. la Reina; no mesmo ano edita o seu “Catálogo de los retratos que se vendem en casa de J. Laurent”. Publica novos catálogos em 1863 e em 1866, neste ano com a edição em francês e tradução em alemão e inglês; também assim procede em 1867, 1868 e em 1872 e 1879, nestes dois últimos com fotografias feitas em Portugal.
Inventou (ou aperfeiçoou) o Papel Leptográfico, com José Martínez Sánchez (1808-1874), cuja patente registaram em 1866.
Em 1867, está presente na Exposição Universal de Paris, onde expõe fotografias das obras públicas de Espanha, uma encomenda de Lúcio del Valle, que Laurent executou com o seu sócio José Martínez Sánchez entre 1865 e 1867.
Tudo indica que os anos de 1869/70 sejam os da sua passagem por Portugal.
Em 1881 recebe a distinção honorífica de Cavaleiro da Ordem de Carlos III e entrega a exploração do seu estabelecimento fotográfico à sua enteada Melina Dosch e ao seu marido Alfonso Roswag.
Jean Laurent faleceu a 24 de Novembro de 1886. A lápide do seu túmulo, recentemente encontrada no cemitério da Almudena, em Madrid, veio esclarecer muitas das dúvidas que até então envolviam a vida do fotógrafo e a história da sua casa fotográfica. Depois da sua morte, Melina Dosch e Alfonso Roswag dão, com grande dificuldade, continuidade ao arquivo. Após a morte de Roswag em 1900, José Lacoste adquiriu o arquivo Laurent que em 1916 já era propriedade de Juana Roig. Posteriormente, passa para a família Ruiz Vernacci a quem o estado espanhol adquire todo o espólio em 1975.

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Toledo. (Espanha),- 1.- Entrada de Toledo pela ponte de Alcantara. Albumina a partir de negativo em vidro de colódio húmido. Colecção Nuno Borges de Araújo.

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Madrid (Espanha). -.938.- Edificio do Congresso dos Deputados. Albumina a partir de negativo em vidro de colódio húmido, cat. Laurent 1879. Colecção João José Edward P. Clode.

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Palencia. (Espanha),- 2010.- Vista tirada a partir do Santo Cristo de Oteros. Albumina a partir de negativo em vidro de colódio húmido. Colecção Nuno Borges de Araújo.

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Madrid.-1032.- Jardim da fonte castelhana. Albumina a partir de negativo em vidro de colódio húmido, cat. Laurent 1879. Colecção António Barreto.

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Ex-Cadeia da Relação do Porto
Campo dos Martires da Pátria, Porto.
Terça a Sexta das 10h00 às 12h30 e das 15h00 às 18h00
Sábados, Domingos e feriados das 15h00 às 18h00

terça-feira, outubro 20, 2009

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a Oriente
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Exposição de Manuel Magalhães na Galeria Serpente
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"a Oriente", uma exposição de fotografias que mostra diversos locais de carácter religioso e histórico que Manuel Magalhães fotografou em diversas deslocações que fez ao Cambodja, India, Japão, Macau, Tailândia.
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SERPENTE - Galeria de Arte Contemporânea
Rua Miguel Bombarda nº 558
4050-379 PORTO
Portugal
tel: 00351 226 099 440
galeriaserpente@sapo.pt
http://www.galeriaserpente.com/
Terça a Sábado das 15.00 às 19.00 horas
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Manuel Magalhães, Porto - 1945

Licenciado em Arquitectura pela E.S.B.A.P. Dedica-se à Fotografia desde 1970 e à investigação da sua história, nomeadamente no que se refere a Portugal e ao Porto. Fez parte do Grupo IF Ideia e Forma (1977/1984). Foi um dos fundadores da Galeria Imago Lucis, no Porto. Vive e trabalha no Porto.


EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

2009 - a ORIENTE. Galeria Serpente. Porto, Portugal. (19 de Setembro/31 de Outubro)

2004 - Galeria Serpente. Porto, Portugal.

2002 - MAR - XII Encuentros Abiertos de Fotografia – Festival de la Luz. – Centro Cultural Borges. Buenos Aires, Argentina.

2002 - Sentiment-Paysage/Quing Jing, Itinéraires des Photographes Voyageurs, Salle Capitulaire, Cour Mably, 2/27 de Abril. Bordeaux, França. http://www.itiphoto.com/2002/default.htm

2001 - Mar, Espaço UFF de Fotografia/Universidade Federal Fluminense, 25/Julho a 2/Setembro. Niterói, Brasil.

2000 - Mar, 3ª. Bienal Internacional de Fotografia Cidade de Curitiba, Memorial de Curitiba, Curitiba (PR), Brasil.

1999 - Retorno à Prata, Galeria Nan Van, Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau. Macau, China.

1999 - Galeria Serpente. Porto, Portugal.1999 - A Lenda do Rei Ramiro, Centro Português de Fotografia, Edifício da Cadeia da Relação. Porto, Portugal.

1996 - Galeria de Exposições Temporárias do Leal Senado. Macau, China.

1995 - Galeria Imago Lucis. Porto, Portugal.

1995 - Espaço Cultural Edel Trade Center, Semana de Fotografia de Porto Alegre. Porto Alegre, Brasil.

1995 - Galeria Diferença. Lisboa, Portugal.

1992 - Galerie Arena, École Nationale de Photographie. Arles, França.

1991 - Galeria Imago Lucis. Porto, Portugal.

1991 - 5º. Encontros da Imagem. Braga, Portugal.

1989 - Septembre de la Photo. Nice, França.

1988 - Galeria de Exposições Temporárias do Leal Senado. Macau, China.

1987 - Galeria Quadrado Azul. Porto, Portugal.

1987 - Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, Portugal.

1984 - Centro di Fotocultura. Castel D’Azzano, Verona, Itália.

1982 - Galeria Il Diaframma. Milão, Itália.1980 - I Encontros de Fotografia de Coimbra. Coimbra, Portugal.

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terça-feira, setembro 08, 2009

Núcleo de Arte Fotográfica
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Curso de iniciação à fotografia analógica



Curso de iniciação à fotografia analógica do Núcleo de Arte Fotográfica do Instituto Superior Técnico, nível 01, introdução à câmara escura, de 29 de Setembro a 17 de Dezembro, 03 meses, 12 aulas, abertura de duas turmas com aulas uma vez por semana às 3as das 19:30 às 21:30 ou às 5as das 20:00 às 22:00.

Para consultar o programa do curso e preencher a ficha de inscrição, http://www.nucleoartefotografica.com/, mais informações mailto:naf.ist@gmail.com?subject=Inscri%C3%A7%C3%A3o.

quinta-feira, agosto 06, 2009


HISTÓRIA DA UTILIZAÇÃO DA IMAGEM FOTOGRÁFICA NA MEDICINA

Por João José P. Edward Clode
Médico Otorrinolaringologista
Membro da A.P.P.H


O aparecimento da Fotografia deve-se a um conjunto excepcional de mistura de progressos técnicos e de evolução da sociedade que permitiram esta feliz conjugação.

Os anos que vêem nascer a fotografia vão ser igualmente, anos de grande evolução no progresso da Medicina, não é de admirar que as primeiras aplicações médicas da fotografia sejam muito precoces e assim apenas alguns meses após o anúncio no dia 7 de Janeiro de 1839 numa sessão da academia das Ciências de Paris da invenção de um novo processo que permitia reproduzir de maneira mecânica, sem intervenção manual as imagens que se formavam na câmara escura por Louis-François Arago,Astronomo e Fisico e grande figura das Ciências Francesas ,já a Medicina estava a utilizar este novo método de registar a imagem como um novo processo de demonstração.

A primeira experiência Médica com Daguerreótipos deu-se provavelmente em Paris, realizado por A. DONNÉ, que era chefe de Clínica do Hospital de Caridade de Paris, que numa comunicação á Academia das Ciências de Paris no dia 24 de Fevereiro de 1840 descreve que tendo feito algumas experiências para melhorar o processo de Daguerre, obteve um excelente resultado tirando o retrato a um morto, o tempo de exposição necessário para tirar um Daguerreótipo era entre 10 e 15 minutos, o que pode justificar o sujeito do retrato. Mais tarde em 1845 A. DONNÉ vai publicar um livro intitulado “COURS DE MISCROSCOPIE COMPLEMENTAIRE DES ÉTUDES MÉDICALES. ANATOMIE MICROSCOPIQUE ET PHYSIOLOGIE DES FLUIDES DE L´ÉCONOMIE” com o subtítulo: ATLAS ÉXECUTÉ D’APRÉS NATURE AU MICROSCOPE – DAGUERRÉOTYPE. Este atlas compunha-se de 20 folhas cada uma com 4 reproduções de imagens. DONNÉ e os seus colaboradores tinham levado 5 anos a recolher dados par a publicação deste atlas. As imagens de daguerreótipo tinham sido copiadas sobre a forma de gravuras por M.OUDET, e trata-se do primeiro livro de Medicina ilustrado por gravuras a partir de imagens fotográficas.

Quase ao mesmo tempo ainda em 1845 surge em Londres um livro intitulado de “ODONTOGRAPHY”,publicado por R.OWEN cujo volume II é um atlas com 168 desenhos feitos a partir e microfotografias.

Até ao aparecimento do colódio húmido, apenas vemos fotografias de Médicos e de Pacientes, e só a partir desta altura que começamos a ver fotografias de doenças com especial incidência na Psiquiatria e na Dermatologia.

A partir de 1852, HUGH DIAMOND, director do Asilo Psiquiátrico de Springfield, perto de Londres, começa a fotografar, através de calótipos, os seus doentes com o objectivo de documentar e poder classificar os seus doentes psiquiátricos. Outro objectivo era identificar um traço comum na face dos doentes procurando uma explicação fisionómica para as suas doenças. As imagens de Diamond foram posteriormente utilizadas num artigo de J. CONELLY, intitulado “THE PHYSIONOMY OF INSANITY” publicado em 1888 com a finalidade de colocar diagnósticos psiquiátricos a partir das imagens de Diamond.

G.B.DUCHENNE DE BOULOGNE, (1806-1875) ocupa um lugar muito importante no inicio da fotografia médica, pois é certamente o primeiro médico a compreender a importância de utilizar a fotografia de forma sistemática .Em 1852 resolve utilizar fotografia, para estudar a acção própria dos músculos e para efectuar o estudo experimental da expressão dos sentimentos humanos. Duchenne um dos pioneiros do estudo de electroterapia, vai utilizar a excitação eléctrica, mais propriamente a faradização para determinar a acção de cada músculo facial, para depois fazer a relação de cada um destes músculos com uma expressão de sentimentos. Este trabalho dirigia-se a dois públicos diferentes, por um lado aos médicos e investigadores, mas também aos artistas, permitindo-lhes o estudo e a reprodução das expressões.

Conclui Duchenne que, alguns músculos da face não contribuem para a expressão facial e que outros necessitam de 1 complementar para que possam exprimir um sentimento. Duchenne vai complementar os seus trabalhos com um extenso estudo fotográfico, publicado no seu livro “MECANISME DE LA PHYSIONOMIE HUMAINE OU ANALYSE ÉLECTRO-PHYSIOLOGIQUE DE LÉXPRESSION DÊS PASSIONS” publicado em 1862.

DUCHENNE DE BOULOGNE não estudou só os sentimentos, mas também as doenças nervosas e assim vai fotografar doentes que sofriam doenças que tinham sido recentemente descobertas e vai publicar o primeiro trabalho com fotografias contendo casos clínicos.

Em 1861,o jornal francês LA SCIENCE POUR TOUS traz uma notícia que diz o seguinte:
“APLICATION E LA PHOTOGRAPHIE A LA LARINGOSCOPIE ET A LA RHINOLOGIE”, por CZERMAK, Médico e Fisiologista de Praga.

“Há já dois anos, refere CZERMAK (que foi o primeiro Médico a executar uma laringoscopia com luz artificial em 1857), que concebi a ideia de aplicar a fotografia á laringoscopia. No folheto que publiquei em 1850 editado em Paris por J.BAILLÉRE na página 30 digo o seguinte: um fotógrafo que consultei o SR.SAMONYI respondeu-me que era possível fixar as imagens que obtínha em mim mesmo com a laringoscopia, pedi ajuda ao conhecido fotografo SR. LACKERBAUER e então colocámos o aparelho fotográfico perto do espelho no mesmo local onde habitualmente se situam os olhos do observador de maneira que as imagens transmitidas pelo espelho incidam na placa de colódio. Ainda que não tenhamos conseguido ainda obter uma imagem completa da laringe, obtivemos, imagens da glote, das cordas vocais e do ventrículo de Morgagni, pelo que não resta qualquer dúvida de é que é possível obter imagens fotográficas com a laringoscopia refere CZERMAK que teve de interromper o seu trabalho em Paris e regressar a Praga, sua terra natal, onde continuou as suas experiências com o Fotografo BRANDEIS, tendo inclusive obtido imagens em relevo pelo método da Estereoscopia.

A partir de 1870 J. M. CHARCOT conduz uma investigação para estudar a histeria. Dois dos seus alunos P. REGINALD e D. M. BOUNEVILLE, a partir de 1875, começaram a tirar fotografias dos doentes de Charcot, com o objectivo de confirmar e fixar em imagens a sintomatologia descrita por este nas suas famosas lições. O estudo daí resultante “ICONOGRAPHIE PHOTOGRAPHIQUE DE LA SALPÊTRIERÉ” é considerado uma das mais belas realizações da Fotografia Médica.

Se a Psiquiatria e a Neurologia ocupam uma parte importante do início da Fotografia Médica, outras especialidades não poderão ser esquecidas, tal é o caso da Dermatologia. No Hospital de Saint-Louis em Paris, sob direcção de A.HARDY, professor de Patologia Interna e A. DE MONTMÉJA, seu interno, foi publicado pela primeira vez em 1867 uma Revista Médica intitulada “CLINIQUE PHOTOGRAPHIQUE DE L´HOPITAL SAINT-LOUIS” inteiramente ilustrada com Fotografias Coladas. Os diferentes números foram reunidos num só volume, e constituíram um Atlas cuja divulgação foi enorme na sua época. Igualmente com imagens retiradas esta revista foi publicada o Livro: “CLINIQUE PHOTOGRAPHIQUE DÊS MALADIES DE LA PEAU” publicado inicialmente em 1866 a edição que tenho é a de 1882 e o autor das fotografias o Dr.Montméja refere na introdução que esta 3ª edição graças aos grandes progressos da fotografia utiliza fototipias, que são imagens inalteráveis para evitar a sua degradação com o tempo como tinha acontecido com as edições anteriores, tinha razão o autor como podemos provar ainda hoje 125 anos depois.

Um dos acontecimentos mais importantes para a medicina foi a descoberta da anestesia geral. Foi no dia 16 de Outubro de 1846 que foi efectuada a primeira operação sob anestesia com Éter. O acontecimento teve lugar no MASACHUSETTS GENERAL HOSPITAL e deveria ter sido fotografado sob a forma de daguerreótipo por J.HAWES, mas este impressionado com a visão do sangue renunciou ao projecto e assim a primeira fotografia de uma anestesia geral que temos foi tirada após concluída a cirurgia e mostra o cirurgião J.C. WARREN que olha em direcção a câmara. O dentista William Morton que foi o primeiro a propor a utilização do Éter não está representado na foto.

A Cirurgia foi objecto de numerosas fotografias, sobretudo nos E. U. A. durante Guerra de Sucessão (1861 – 1865). Em 1863 o Cirurgião General dos Estados Unidos deu ordem para fotografar os casos médicos mais interessantes da cirurgia da guerra, estes negativos deveriam ser enviados ao museu do exército recentemente criado. Foi assim constituída uma excepcional colecção de milhares de fotografias de feridos de guerra. As amputações que eram um dos actos médicos mais praticados durante a guerra foi objecto de inúmeras fotografias .Sobre esse acto cirúrgico é curioso lembrar que nesta época a rapidez de actuação era fundamental e assim um bom cirurgião levava para amputar uma perna cerca de 2 minutos e um braço cerca de 1 minuto, incrível mas verdade.

A Fotografia Médica foi evoluindo tal como a fotografia em geral, e os seus métodos foram sendo simplificados e aperfeiçoados, apenas irei referir mais alguns factos:
O primeiro livro publicado em Espanha com fotografias médicas é o “TRATADO CLINICO ICONOGRÁFICO DE DERMATOLOGIA QUIRURGICA” publicado em 1880 por JUAN GINÉ E PARTAGAS publicado em Barcelona em 1880, no exemplar que possuo as Três Albuminas coladas vêm num volume separado em forma de atlas, acompanhadas de outras ilustrações.
Um dos primeiros livros ilustrados com fotografias de Observações Clínicas dos olhos, ouvidos e garganta é o livro “EPITOME OF EYE, EAR, THROAT AND NOSE DISEASES”, publicado em Filadélfia em 1886 que apresenta 3 fotografias coladas em cartolinas inseridas no texto.

O primeiro livro exclusivamente sobre Fotografia Médica foi o livro de ALBERT LONDE: “LA FOTOGRAPHIE MÉDICAL” de 1893.ALBERT LONDE,Membro da Sociedade Francesa de Fotografia desde 1879 dedica o livro ao PROF. CHARCOT, dizendo que desde há 10 anos que o Prof.Charcot lhe tinha confiado a direcção do serviço fotográfico do Hospital de Salpetriére, desejando com esta obra contribuir para homenagear o hospital e o seu mestre.

Muitos outros grandes Mestres e pioneiros se poderia falar como por exemplo os trabalhos de Etienne-Jules-Marey sobre o Movimento ou de César Lombroso sobre os Criminosos.

A fotografia médica acompanhou a evolução da fotografia em geral, com o desenvolvimento das imagens estereoscópicas que permitiam ver outros detalhes e o relevo, o aparecimento da cor na fotografia embora no final do século 19 fosse de forma muito incipiente começou a dar os primeiros passos.

No ano de 1895 WILHELM CONRAD ROETGEN descobre os raios X .Um mês depois é feita a primeira angiografia por HESCHEK E LINDENTHAL.

Era o final de um século de grandes descobertas e de evolução se paralelo na história ,mas no novo século que aí vinha a evolução ainda foi muito maior ,mas esse é outro capitulo deste trabalho.


A FOTOGRAFIA MÉDICA EM PORTUGAL


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Cabeça óssea de Mattos Lobo

A primeira aplicação da Fotografia à Medicina em Portugal, que se tenha conhecimento ocorreu em 1842. Um célebre assassino da época, Francisco Matos Lobo, tinha sido condenado à morte por enforcamento e os médicos Francisco Martins Pulido e João José Simas, requereram ao ministro do reino que o cadáver do condenado fosse entregue à Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa para estudos de Frenologia.

A Frenologia é o estudo do carácter e das faculdades mentais de um individuo a partir da forma do crânio e foi criada no final do séc.XVIII em Viena por F.J.GALL. GALL era um dos anatomistas mais famosos da sua época e baseava os seus estudos na hipótese de que o cérebro humano não era formado por um tecido funcional homogéneo mas possuía zonas circunscritas contendo cada uma funções inatas, que se localizavam em determinadas proeminências do crânio, podia-se assim conhecer o carácter de uma pessoa pela palpação ou observação do seu crânio.

Tendo o ministro autorizado, foi realizado o exame do Crânio, nos dias 17 e 18 de Abril de 1842, seguidamente no Pátio do Hospital o Crânio de Matos Lobo foi copiado para chapa de Cobre,- tal como, refere o jornal o PERIÓDICO DOS POBRES de 1842.- segundo o método de Daguerre, a imagem do Crânio de Matos Lobo saiu perfeitíssima, segundo confirmava o mesmo jornal e referia o jornal em jeito de comentário: “Se os estudos frenológicos são de alguma importância, muito bons serviços poderia prestar o Daguerreótipo. Por via dele se poderão multiplicar infinitamente os gabinetes frenológicos enriquecendo-se cada um deles com as preciosidades de todos os outros”.

A passagem da Daguerotipia à litografia tornou-se numa realidade, pela impossibilidade de reproduzir as imagens e assim o Dr. António da Costa Paiva, formado em Medicina na Universidade de Paris e Barão de Castelo de Paiva passou à pedra uma imagem obtida ao Daguerreótipo, pelo estudante, cujo nome era Lapa e Faro, da Escola Médica do Porto, do quadro representando o Juízo Final de Miguel Ângelo, esta imagem litográfica foi distribuída aos amigos dos dois artistas.


"Revista Gazeta Médica de Lisboa" de 16 de Março de 1856. Litografia a partir de um daguerreótipo de um caso de teratologia.


Em 1856, o Professor Cunha Viana publicou num artigo na REVISTA GAZETA MÉDICA DE LISBOA de 16 de março de 1856 uma litografia, a partir de um daguerreótipo de um caso teratologia. “Uma monstruosidade sem braços, nem pernas” sendo referido no artigo o seguinte, “Está exposto à admiração pública na Praça D. Pedro nº 101 – 1º andar um infeliz rapaz de 13 anos de idade que nasceu sem braços nem pernas”.Fomos vê-lo na companhia dos nossos Colegas Sr. Dr. António Maria Barbosa e Dr. Alvarenga e desde logo resolvemos fazer a história e a descrição desse fenómeno. O colega Sr. Dr.Barral , a expensas suas quis mandar fazer a estampa que acompanhou este artigo”.

A verdadeira iniciação da Fotografia Médica em Portugal vai-se dar em grande parte devido ao DR. MAY FIGUEIRA, que era Professor da Escola Médico – Cirúrgica de Lisboa e, um grande apaixonado pela fotografia. Este seu interesse pela fotografia apanhou-o durante o estágio que realizou em Paris, em 1856 no Collége de France, no Laboratório de Microscopia do Professor Charles Robin.


Retrato do Dr. May Figueiredo


De regresso a Portugal, May Figueira passou a fotografar de forma sistemática todos os casos, que achava terem algum interesse clínico para memória futura, tendo criado na sua casa da Rua António Maria Cardoso em Lisboa, um estúdio fotográfico onde executava as suas provas fotográficas.

A primeira fotografia que se sabe ter sido executada por May Figueira foi uma microfotografia realizada com um microscópio da marca Lerebours, de um doente falecido em 1857, durante a Epidemia da Febre-amarela. Esta Epidemia causou grande agitação no meio Médico Português, tendo-se até realizado em Lisboa um Congresso para só para estudar esta epidemia.

May Figueira foi escolhido pelo Dr. Alvarenga que presidia uma das secções deste Congresso para estudar a morfologia do fígado na doença. Descobriu May Figueiredo, que as alterações, consistiam numa degenerescência gorda do Fígado, muito grave. Esta descoberta foi contestada pelo Dr. Guyon em França, que referia ter sido ele o primeiro a observar tais alterações, o que levou May Figueiredo a recorrer não só a desenhos mas à realização da Primeira Microfotografia Médica realizada em Portugal.

Não há muitas notícias da aplicação da Fotografia à Medicina por outros autores e assim, entre 1862 e 1863, vamos ter um curso de Microfotografia na Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, com o depoimento de May Figueira publicado na Revista O Instituto de Coimbra: “A última lição, que só por si constitui a quarta parte, e última do Curso, consistiu na maneira de fotografar ao microscópio solar. Mostrei várias fotografias feitas deste modo apresentando objectos de botânica, zoologia, anatomia normal e patológica e fiz também uma destas fotografias em presença de um numeroso auditório. Mostrei nesta apresentação mais de oitenta preparações diferentes”.

Em 1864, o mesmo Dr. May Figueira vai publicar um artigo intitulado “Observação de um caso de hermafroditismo masculino colhido no Hospital de São José”. São dele as seguintes palavras: “Tratei de conservar e preparar a cabeça e órgãos sexuais deste hermafrodita, oferecendo-os depois ao Museu de Anatomia Patológica da Escola Médico – Cirúrgica de Lisboa, onde podem ser vistos e observados, assim como as fotografias da fisionomia do mesmo indivíduo, que tirei durante a vida, e a dos órgãos sexuais dissecados depois da morte.


Fotografias de Teodoro César Oliva, aluno da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, em 1863


Outro fotógrafo amador, que também se interessou pela Fotografia Médica foi Teodoro César Oliva, aluno da Escola Médico – Cirúrgica de Lisboa e do qual chegaram até aos nossos dias vários exemplares de fotografias tiradas por ele, todas elas têm uma dimensão de 6 por 6 cm e encontram-se datadas com o respectivo diagnóstico tal como refere Professor Cortez Pimentel no seu livro sobre a Imagem Médica em Lisboa.



Doente com Macroglossia Congénita, que o Prof. António Maria Barbosa operou.


No espólio do Museu Anatómico da Escola Médico – Cirúrgica de Lisboa existem ainda fotografias assinadas com o nome de M. Nunes. Não tenho conhecimento de outras aplicações fotográficas até ao final da década de 1870, altura na qual, por influência do Professor António Maria Barbosa, famoso cirurgião da época a fotografia passou a ser utilizada para o estudo dos resultados pós-operatórios, tal como é o caso de um doente com Macroglossia Congénita, que o Professor António Maria Barbosa operou em 1879 e o Professor Serrano estudou pormenorizadamente tal como veio publicado no Correio Médico de 1 de Fevereiro de 1879, em que podemos comparar as fotografias originais que vêm referidas na segunda parte do artigo. As quatro gravuras que acompanhavam este artigo são cópias fiéis das fotografias tiradas antes e depois da operação. O artigo vem assinado por Guilherme Oliveira Martins, quintanista de Medicina da Escola Médica de Lisboa.

Em meados da década de 70, começaram a ser publicadas de forma regular em Portugal as primeiras revistas periódicas com albuminas coladas. Assim vamos ter revistas como o Contemporâneo, O Toureiro ou o Algarve Ilustrado em que, cada número vinha com uma albumina colada. O número de albuminas produzidas por cada negativo devia ser relativamente pequeno, pois é muito frequente encontrar, o mesmo número da revista produzida na mesma altura com imagens diferentes sobre o mesmo assunto, quer seja retrato ou paisagem.

Maximiano Lemos, no Livro de História do Ensino Médico do Porto refere que Plácido da Costa, um dos pioneiros da Oftalmologia em Portugal, tendo inclusive descoberto um novo instrumento para a investigação rápida e completa das irregularidades da curvatura da Córnea – o Astigmatoscópio, que foi Professor da Escola Médico – Cirúrgica do Porto em 1881 e 1882 desenhou preparações microscópicas de cortes do cérebro feitas por Magalhães Lemos e que figuraram na sua tese “A região Psico – Motriz” defendida em 1882 e que, em virtude de terem sido feitos com grande dimensão foram reduzidos e reproduzidos na tese pela Fototipia.

Em 1881, Lourenço da Fonseca Júnior, um dos Pioneiros da Oftalmologia em Portugal, fundador e director do Arquivo Ophtalmoterápico, publica no número 6 -2ºAno de Nov.-Dez de 1881 um artigo intitulado “NEO-MEMBRANAS DA RETINA OU DO CORPO VITREO”que vem ilustrado na pag.149 com uma Albumina colada com uma imagem da retina.Em 1884 Lourenço da Fonseca publica o Livro “LE FOND DE L’OEIL DANS QUELQUES MALADIES MOINS FREQUENTES DE LA RETINE DE LA CHOROIDE ET DU NERF OPTIQUE” publicado por Lallemant Frères. É um livro de 25 páginas, com duas folhas de cartolina com 11 albuminas coladas. Penso tratar-se do primeiro livro Médico com inclusão de fotografias publicado em Portugal, infelizmente não consegui ter acesso a nenhum exemplar nem na Biblioteca Nacional.

Francisco Lourenço da Fonseca Júnior, foi médico, poeta, publicista e nasceu no Rio Grande do Sul no Brasil em 20 de Junho de 1848. Ainda em criança veio viver para Lisboa onde fez o seu curso de Medicina e querendo dedicar-se à especialidade do tratamento de doenças dos olhos, praticou largamente, com o Médico Oculista Van-der-Laan. Estabeleceu depois um consultório próprio na praça Luís de Camões, tendo tratado milhares de doentes. No final da década de 80, foi viver para o Brasil onde ficou uns anos. Voltou para Lisboa onde faleceu a 6 de Julho de 1902.

Na COIMBRA MÉDICA, revista quinzenal de Medicina e Cirurgia publicada em Coimbra, cujo director era o Professor Dr. Augusto Rocha, vai sair no 6º ano, no número 6 de 15 de Março de 1886 um artigo do posteriormente famoso Professor Urbino de Freitas sobre: “Um caso de lepra anestésico – tuberosa por lesões nervo-trópicas primárias”, Vinha acompanhado de 4 fototipias, ,no final do artigo vinha um aviso que dizia o seguinte:” Os senhores assinantes que quiserem adquirir fotocópias podem obtê-las pelos seguintes preços, compreendido o transporte - FORMATO PEQUENO - Phototypia em preto: 400 Reis. Phototypia em côr: 1.200 Reis: Photographia inalterável processo carvão: 1.200 Reis. FORMATO GRANDE, Phototypia em preto: 700 Reis, Phototypia em côr: 2.400 Reis. Photographia inalterável, processo carvão: 2.400 Reis.


Fototipia de "Um caso de lepra", publicado no número 6 a 15 de de Março de 1886, da revista Coimbra Médica.


Estes preços, dizia o aviso, são calculados na hipótese de ser muito limitado o número de pedidos; se for avultado, o preço será muitíssimo menor. Em todo o caso, a empresa garantia o fornecimento da colecção completa pelos seus custos sem receber daí comissão nenhuma. Queria garantir unicamente aos seus assinantes a posse dos documentos comprovativos deste importante caso.

O Professor Pires de Lima, num artigo publicado no”Tripeiro” 3º ano, número 86 de 10 de Novembro de 1910, faz uma referência às teses apresentadas à Escola Médica do Porto. Refere Pires de Lima que até essa altura teriam sido apresentadas 1323 dissertações inaugurais, referindo que muitas eram trabalhos vulgares e que, abrindo ao acaso qualquer tese, se encontrava no inicio frases de revolta contra as disposições regulamentares que forçavam todos os alunos a serem escritores. Pires de Lima destaca a tese de Magalhães de Lemos a que já fizemos algumas referências e refere existirem teses com muito valor e mérito. Silva Carvalho refere que algumas destas teses eram ilustradas com fotografias e que o Professor Hernani Monteiro, autor do suplemento da obra de Maximiano Lemos sobre a Escola Médico- Cirúrgica do Porto lhe teria feito uma relação das teses com fotografias e que eram as seguintes:

De Eduardo Pimenta “ RESSECÇÕES PERIOSTEAS” em 1891 – incluía uma fotografia colada da pata de um coelho.

De Francisco Vasconcelos Carvalho Branco – “GRAVIDEZ ECTÓPICA” em 1891 com duas fotografias de imagens de um feto.

De António Caetano Fernando Castro – “AS SALPINGITES” Em 1891 com duas fotografias com reprodução de um quisto do ovário.

De Armando de Cunha Azevedo – “Diagnóstico e tratamento de gravidez ectópica” em 1895 – com uma fotocópia de uma Peça operatória.

Na REVISTA DE MEDICINA E CIRURGIA cujos redactores eram Alfredo da Costa, Câmara Pestana, Mello Viana, Avelino Monteiro e Augusto de Vasconcelos no dia 25 de Maio de 1894 é publicado um artigo de CÂMARA PESTANA – Director do Instituto Bacteriológico e de ANÍBAL BETTENCOURT – Chefe do Instituto Bacteriológico com o título “Contribuição para o estudo Bacteriológico da epidemia em Lisboa – 1ª memória”. Este estudo vem acompanhado por 3 estampas que são 3 fototipias publicadas em separado com Imagens do Vibrião Colérico que causou a Epidemia em Lisboa e que afectou mais de 15.000 pessoas.”

A Primeira Revista Médica com impressão de Imagem fotográfica foi a “REVISTA PORTUGUESA DE MEDICINA E CIRURGIA PRÁTICAS” que no seu número 4 de 15 de Dezembro de 1896 – publicou uma fotografia de Joaquim Eleutério Gaspar Gomes, que era entre muitas outras actividades tinha sido Médico do Hospital de D. Estefânia e que faleceu em 27 de Novembro de 1896. No número 8 da mesma revista de 15 de Fevereiro de 1897, volta a ser publicada uma fotografia, esta de José António Arantes de Pedrosa, cirurgião do Hospital de São José que tinha falecido em 19 de Janeiro de 1897. O seu elogio fúnebre na revista é feito por Tomás de Sousa Martins.

Em 1884 no Livro “4 DIAS NA SERRA DA ESTRELA – NOTAS DE UM PASSEIO” de Emidio Navarro, foi José Thomas Sousa Martins famoso professor da Escola Médico-Cirurgica de Lisboa que fez o prefácio, intitulado de Carta – Prefácio .O livro é ilustrado com 12 fototipias colocadas à parte feitas a partir de clichés de A. César Henriques.

No ano de 1899, Ricardo Jorge descobre um foco de Peste Bubónica no Porto e, em colaboração com o Histologista António Plácido da Costa, publicam os seus resultados acompanhados de ilustrações fotográficas.

Em 20 de Julho de 1899 na Revista Coimbra Médica, no seu 19º ano, nº 21 encontramos um artigo de Charles Lepierre e Ângelo Fonseca- “ ESTUDO DE UM NOVO AGENTE PATOGÉNEO BACILLUS TESTICULARIS”. Este artigo vinha acompanhado por uma fototipia com imagens macro e microscópicas deste agente patogénico.

A noticia da descoberta dos RAIOS X foi publicada pela 1º vez em Portugal a 27 de Janeiro de 1896 no Jornal NOVIDADES e a 1 de Março do mesmo ano no Jornal O SÉCULO. O então enfermeiro Mor Dr.JOÃO FERRAZ E MACEDO, percebendo a utilidade desta descoberta, consegue em 1897 a instalação do primeiro dispositivo de radioscopia e radiografia no Hospital de S.José, cabendo a VERGILIO MACHADO, facultativo dos Hospitais Civis de Lisboa as primeiras investigações e manipulações nessa matéria.

O bacteriologista ANÍBAL DE BETTENCOURT, Primeiro Presidente da Sociedade Portuguesa de Photographia, criada em 1907, publicou fotografias suas em três relatórios: Um sobre o estudo do Ovário em 1901. Outro da autoria de Azevedo Neves sobre a doença do sono em 1902 e outro sobre a meningite cérebro-espinhal epidémica em 1903 da autoria de Carlos França.

A 31 de Dezembro de 1899 inaugurou-se em Lisboa, a I Exposição Nacional de Fotografias de Amadores no salão principal da Sociedade de Geografia, presidida pelo Conde de Tomar. Foi a grande explosão em Portugal de Fotografia Amadora, numa altura em que se dá a simplificação dos processos fotográficos, com a revolução causado por George Eastman (Kodak), a primeira câmara Kodak surgiu em 1888 e a famosa Pocket em 1895,é também nessa época que as películas passaram a ser em rolo e ao alcance dos amadores menos abastados. Era o início do Século da Imagem em que todos e em qualquer ocasião poderia ser guardada para sempre através da “Luz Pintora” como se dizia em 1839.
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quinta-feira, julho 09, 2009

Os Ambrótipos e o Processo de Colódio Húmido


Ambrótipo, Luis Pavão. Arquivo Fotográfico de Lisboa, 2009

Workshop do processo do colódio húmido
O processo do colódio húmido, que possibilita a construção de ambrótipos, foi o mais usado em todas as aplicações fotográficas de 1850 a 1880. A observação simples de um negativo sobre uma superfície preta mostra-nos uma imagem positiva à qual se chama ambrótipo. Este workshop do Arquivo Fotográfico visa reproduzir todo este processo, dando a possibilidade a todos os participantes de fazerem um ambrótipo.





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Os Ambrótipos e o Processo de Colódio Húmido
O colódio é uma substância de origem vegetal, à base de celulose, que resulta da dissolução de algodão pólvora em éter e álcool. É um liquido viscoso, com cheiro forte e facilmente aderente, mesmo em situações húmidas. Sua descoberta, por Louis Menard, data de 1847 e teve aplicação imediata no isolamento de ferimentos de guerra. Mais tarde foi Desde a sua descoberta que o colódio foi considerado uma possibilidade para a produção de negativos em vidro, mas porque seca rapidamente, não permite produzir imagens fotográficas: uma vez seco o colódio perde a sensibilidade à luz e deixa de ser permeável aos banhos de processamento. Em 1849 surge a ideia de usar o colódio enquanto húmido e realizar todo o processo num usado na fotografia, como meio ligante de provas e negativos.
Os primeiros negativos da história da fotografia eram em papel. Não eram de boa qualidade porque o papel é um material fibroso, apenas translúcido e de superfície irregular. Em meados do século XIX eram populares os negativos em papel para imprimir provas. Contudo, sendo fibroso e pouco transparente, as fibras do papel ficam também impressas na imagem.
O suporte mais adequado para negativos fotográficos no século XIX seria o vidro. Os sais de prata não aderiam ao vidro por si só e seriam lavados na primeira imersão nas soluções de processamento. Seria necessário acrescentar mais qualquer coisa ao vidro, que permitisse segurar os sais de prata para produzir as fotografias.
O primeiro processo fotográfico que surgiu com suporte de vidro foi o negativo de albumina, na década de 1840, usando a clara do ovo, material transparente e de fácil aquisição, como meio de suporte da prata. Embora funcionasse bem, este processo não teve muitos adeptos, porque não permitia produzir chapas rápidas: eram necessários longos minutos de exposição para produzir uma fotografia e os retratos não eram possíveis. Foi usado moderadamente em fotografia de arquitectura e de paisagem no final da década de 1840.
Desde a sua descoberta que o colódio foi considerado uma possibilidade para a produção de negativos em vidro, mas porque seca rapidamente, não permite produzir imagens fotograficas: uma vez seco o colódio perde a sensibilidade à luz e deixa de ser permiavel aos banhos de processamento. Em 1849 surge a ideia de usar o colódio enquanto humido e realizar todo o processo num espaço de tempo curto. Enquanto o colódio se mantém húmido é uma substância porosa, permeável aos líquidos, que funciona bem como meio ligante da fotografia.
Esta descoberta, realizada por Frederick Scott Archer (1813-1857), revelou-se da maior importância para a fotografia e permitiu que toda a produção passasse do velho daguerreótipo para um suporte transparente (vidro), que permite imprimir muitas cópias em papel fotográfico a partir do mesmo original. Outra vantagem foi a maior sensibilidade à luz das placas de colódio húmido, permitiam produzir retratos com exposição mais curta (cinco, três ou mesmo apenas um segundo). Principal destino para as fotografias eram os retratos – era o negócio dos retratos de estúdio que movimentava mais clientes e trazia maiores rendimentos aos fotógrafos.
O processo fotográfico em vidro de colódio vingou e ultrapassou os outros processos em uso. A partir da década de 1850, os fotógrafos existentes e que usavam o daguerriótipo ou o negativo em papel, rapidamente converteram os seus estúdios ao processo do colódio húmido, passando a produzir retratos em papel de albumina impressos a partir de negativos em vidro de colódio e dos quais podiam tirar muitas cópias.O tempo de exposição passou a ser mais curto e tornou-se mais fácil fazer retratos de grupos ou de crianças.
O surgimento do processo do colódio trouxe para a fotografia mais adeptos. Os preços mais baixos e a possibilidade de imprimir muitas cópias chamavam cada vez mais publico para os estúdios de retrato. Assistiu-se a um desenvolvimento da fotografia sem precedentes, o que foi acentuado com a impressão em pequenos formatos, colados em cartão, chamados Carte de Visite e Cabinet. Também a possibilidade de imprimir muitas cópias facilitou a produção de edições de retratos de pessoas importantes, procurados por muitos e vendidos aos milhares, como a família real, artistas de teatro e ópera, escritores, poetas, etc. As vistas de monumentos e lugares distantes, conhecidos até então apenas por meio do desenho, despertaram grande interesse do publico mais culto e curioso. Surgiram álbuns à venda com fotografias de pirâmides do Egipto, Terra Santa, paisagens de cidades e campo.
A produção dos negativos de colódio húmido levantou novos problemas práticos, quando se tratava de fotografar fora do estúdio. Uma vez que este processo era obrigatoriamente executado em poucos minutos, antes do colódio secar, obrigava os fotógrafos em viagem a transportar consigo todo o material necessário para produção das fotografias: câmara fotográfica, tripé, objectiva, vidros em grande quantidade, as soluções de colódio, nitrato de prata, revelador e fixador para processar, uma câmara escura, contentores com água, toda uma parafernália de câmara escura. Para a produção de provas de grande formato muitos destes fotógrafos viajantes transportavam câmaras de grande formato e em madeira, para a produção de negativos até 40x50 cm ou 50x60 cm.
Mesmo com estas dificuldades práticas, o processo do colódio húmido foi o mais usado em todas as aplicações, durante cerca de trinta anos, desde 1850 até 1880 e marca profundamente a fotografia deste período inicial.
Os fotógrafos desta época fotografaram todo o planeta em negativos de colódio húmido: desde as pirâmides do Egipto a monumentos escondidos na areia, o topo de montanhas como o Monte Branco e os Himalaias, zonas inóspitas e longínquas no oeste americano, descobrindo belezas naturais até então desconhecidas. As populações e costumes do Extremo Oriente, como a China e o Japão, as guerras como a Guerra da Crimeia, a Guerra Civil dos Estados Unidos, a Comuna de Paris, foram fotografadas e reveladas ao mundo através de negativos de colódio húmido e das provas de albumina.
A observação simples de um negativo, visto sobre uma superfície preta, mostra-nos uma imagem positiva. Quando este suporte é um vidro, chama-se um ambrótipo. O inventor foi Adolphe Alexandre Martin (1824-1896), que apresentou em 1852 e 1853, duas soluções, uma imagem sobre vidro com fundo em cartolina preta e outra usando um suporte em ferro, pintado de preto. É este o processo que vamos aqui fazer.
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Operações na produção de Ambrótipos

1. Polir os vidros com carbonato de cálcio, álcool e água.
2. Soprar com pêra de sopro e pincel macio.
3. Aplicar a solução de colódio fotográfico sobre a chapa de vidro.
4. Espalhar e devolver o excedente ao frasco.
5. Deixar secar até se tornar pegajoso.
6. Colocar o vidro no suporte de acrílico.
7. Mergulhar na solução de nitrato de prata durante três a cinco minutos.
8. Retirar do suporte e enxugar as costas da chapa de vidro.
9. Colocar no chassis da câmara fotográfica.
10. Tirar a fotografia.
11. Revelar na solução de sulfato ferroso.
12. Lavar em água (pode acender a luz)
13. Fixar no banho de cianeto de potássio, a imagem converte-se em positivo numa tina preta.
14. Lavar em água corrente durante 10 minutos e secar ao ar.
15. Secar a placa na lamparina, até ficar quente.
16. Envernizar com goma de sandarac.
17. Secagem sobre a chama da lamparina.
18. O Ambrótipo deve ser visto sobre um fundo negro para aparecer como um positivo.
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Soluções para a preparação de Ambrótipos

Banho de Colódio:
.Colódio USP
. Álcool.Éter etílico
. Brometo de cádmio
.Iodeto de potássio
. Água destilada

Banho sensibilizador de Nitrato de Prata:

. Nitrato de Prata 28g
. Água destilada 355 ml
.Acido nítrico ou acético

Banho de revelador:

.Sulfato ferroso 15g
. Água destilada 355 ml
. Ácido acético 14 ml
. Álcool 18 ml

Banho de fixador:

.Água destilada 946 ml
. Cianeto de potássio 14g

Para envernizar as chapas:

.Álcool 14 ml
.Goma de Sandarac 57 g
.Óleo de Lavanda 44 ml
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A variante Ambrotipia, elaborada por Ascher com a colaboração de Peter Wickens Fry, consistia num positivo directo, obtido com a chapa de colódio. Branqueava-se um negativo sub-exposto de colódio, escurecia-se o dorso com um tecido preto ou um verniz escuro, dando assim a impressão de um positivo. Quando um negativo é colocado sobre um fundo escuro com o lado da emulsão para cima, surge uma imagem positiva graças à grande reflexão de luz da prata metálica. Dessa maneira o negativo não podia mais ser copiado, mas representava uma economia de tempo e dinheiro, pois eliminava-se a etapa de obtenção da cópia. O nome Ambrotipo foi sugerido por Marcos A. Root, um daguerreotipista da Filadélfia, sendo também usado este nome na Inglaterra. Na Europa era geralmente chamado de Melainotipo. Os retratos pequenos, feitos através deste processo, foram difundidos nos anos 50 até serem superados pela moda das fotografias tipo "carte-de-visite".Outra variação do processo colódio, o chamado Ferrótipo ou Tintipo, produzia uma fotografia acabada em menos tempo que o Ambrotipo. Há divergências entre os autores quanto ao criador do processo; para uns, o ferrótipo foi elaborado por Adolphe Alexandre Martin, um mestre francês em 1853, para outros foi Hannibal L. Smith, um professor de química da Universidade de Kenyon, quem introduziu o processo. Este processo era constituído por um negativo de chapa húmida de colódio com um fundo escuro para a formação do positivo; mas ao invés de usar verniz ou pano escuro, era utilizada uma filha de metal esmaltada de preto ou castanho escuro, como suporte do colódio. O baixo custo era devido aos materiais empregados e a sua rapidez decorria das novas soluções de processamento químico.O ferrótipo desfrutou de grande popularidade entre os fotógrafos nos Estados Unidos a partir de 1860, quando começaram a aparecer os especialistas fazendo fotos de crianças em praças públicas, famílias em piqueniques e recém-casados nas porta de igrejas.O inconveniente de todos os processos por colódio era a utilização obrigatória de placas húmidas. Idealizou-se várias maneiras de conservar o colódio em estado pegajoso e sensível durante dias e semanas, de forma que toda a manipulação química pudesse ser realizada no laboratório do fotógrafo em sua casa, mas logo apareceu o processo seco que substituiu o colódio rapidamente: a gelatina.
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quarta-feira, abril 29, 2009


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A Photographia – Museu “Vicentes encontra-se instalada no antigo estúdio fotográfico de Vicente Gomes da Silva (1827 – 1906), que iniciou a sua actividade como retratista, por volta de [1853].
Em 1865, Vicente Gomes da Silva adquire o prédio localizado à Rua da Carreira e aí constrói o seu “atelier fotográfico”.
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Entre Dezembro de 1886 e Agosto de 1887, Vicente Gomes da Silva e já sob a direcção de seu filho Vicente, Júnior (1857-1933), são realizadas obras de ampliação do antigo “atelier”. Edifício que se mantém até aos nossos dias, e constituindo, deste modo, um ex-líbris da arquitectura dos “ateliers” fotográficos do século XIX.

Ao longo dos tempos passaram pelo estúdio, quatro gerações da Família “Vicentes” que transmitiram, sempre, às gerações seguintes “a arte de fotografar”.
A 13 de Junho de 1979, o Governo da Região Autónoma da Madeira adquire todo o recheio do estúdio da “Photographia Vicente”, adaptando o espaço para aí instalar uma unidade museológica.

A 22 de Março de 1982 abre ao público a Photographia – Museu “Vicentes” com o recheio do estúdio, que inclui cenários, máquinas fotográficas, livros relativos às técnicas fotográficas, mobiliário de “atelier”, cerca de 400 mil negativos datáveis entre 1870 e 1978 e que se encontram registados em 47 livros, constituindo uma riquíssima fonte histórica das actividades comerciais, de visitantes ilustres que passaram pela Ilha da Madeira e também, para o estudo de genealogias de Famílias Madeirenses.
Desde a abertura ao público, que o acervo da Photographia – Museu “Vicentes” tem vindo a ser enriquecido com aquisições e doações de colecções de fotógrafos profissionais e de amadores. Actualmente, o seu arquivo fotográfico ascende a cerca de 800 mil negativos.
Consta, também, do acervo da Photographia – Museu “Vicentes” um núcleo museológico dedicado ao Cinema, fazendo parte o espólio da antiga “Delegação de Turismo da Madeira” e actual Direcção Regional de Turismo.
O imóvel onde está instalada a Photographia – Museu “Vicentes” foi classificado como património de “valor cultural regional” pela Resolução n.º 78/91 de 24 de Janeiro, com conversão efectuada pela Portaria n.º 34/2004 de 1 de Março, de “imóvel de interesse público”.

Director:Maria Helena Araújo

Morada:Rua da Carreira, 43 – 1º
Apartado 3489001 – 904 Funchal – Madeira
Tel: (00 351) 291 22 50 50
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