terça-feira, julho 15, 2008















.
. mulheres mitológicas
mulheres carnais
.

Flor Garduño, mulher fantástica

Mulher fantástica, Flor Garduño está na Pente 10 – Fotografia Contemporânea com trabalhos que visitam lendas e mitologias femininas. Flor já esteve em Portugal a convite do CPF em Dezembro de 2007 com “Testemunhos do Tempo”. Flor está de regresso ao nosso país, a convite de Catarina Ferrer e Pedro Lopes Vieira, para expor num novo espaço de fotografia na capital, a Pente 10, porque se situa no n.º 10 da Travessa da Fábrica dos Pentes, entre a Rua da Artilharia Um e o Jardim das Amoreiras. A fotógrafa mexicana mostra-nos, em “Mujeres Fantásticas”, as mulheres para além do erotismo e denuncia o seu conhecimento e interesse por outras artes como a literatura, a pintura e a música.

A Pente 10 tem vindo a editar um pequeno catálogo que acompanha as exposições, foi assim com “Elementos” de José M. Rodrigues e com o trabalho de Miguel Santos, "Love Forbids Us To Love" agora, Teresa Siza assina o texto de “Mujeres Fantasticas” de Flor Garduño, 3 edições de qualidade que espelham a seriedade e a aposta na qualidade. Na exposição pode ainda adquirir algumas das edições da fotógrafa e ouvir uma entrevista conduzida por Sérgio Gomes onde Flor Garduño fala sobre: mulheres carnais, mulheres mitológicas, liberdade para ver, preso à nudez, esconder o olhar, fugir ao tempo, representar a mulher, Manuel Álvarez Bravo e espinhos são sofrimento?













liberdade para ver



Manuel Álvarez Bravo



os espinhos são sofrimento?


Agradecimentos à Pente 10 e especialmente a Catarina Ferrer por ter permitido a divulgação da entrevista a Flor Garduño no Grand Monde e no Blog da APPh. – Associação Portuguesa de Photographia..


Para ver até 9 de Agosto de 2008
3.ª a Sábado das 11:00 às 19:00
Travessa da Fábrica dos Pentes n.º 10
Metro Rato

.
.

quarta-feira, julho 02, 2008


.........................

Thomaz Teixeira Nunes ao lado a filha Laurentina Nunes Siza, as fotografias (albuminas) de cerca de 1865, foram posteriormente coladas nos cartões do estúdio que Manoel Nunes Siza abriu em Barbados nas Ilhas das Caraíbas. © Colecção Teresa Siza



A filha do carcereiro


Quando em 1997 Manuel Maria Carrilho convidou Teresa Siza para estar à frente do maior projecto fotográfico até então sonhado para Portugal e que culminaria na criação do Centro Português de Fotografia – CPF, na Cadeia da Relação do Porto, estava ela longe de imaginar os enredos à moda de Camilo que a espreitavam.
Em 2001 Teresa Siza adquiriu na Livraria Histórica Ultramarina em Lisboa – espaço que, infelizmente, já desapareceu, e onde reuniam alguns intelectuais à conversa com José Maria Costa e Silva (Almarjão) -, um Almanaque de Anúncios de 1873, onde descobre que Tomás Teixeira Nunes (Braga?-?), seu trisavô, era o carcereiro da Cadeia da Relação do Porto em 1873. Até então Teresa desconhecia este dado.
Tomás Teixeira Nunes, o carcereiro da Relação, tinha dois filhos: o fotógrafo Henrique Nunes (1820-1882), com estúdio desde 1863 na Rua das Flores, n.º 152, no Porto, e onde, por ventura, terá trabalhado Júlio Augusto Siza (Braga,1841-Matosinhos, 1919), antes mesmo de casar com a filha do carcereiro, Laurentina Augusta Nunes (1839-1878). Quando casou em 1865, a noiva tinha 26 anos e vivia com o pai na Relação, como aliás consta da certidão de casamento.
Em 1862 o trisavô de Teresa Siza, Tomás Teixeira Nunes, ainda não seria o carcereiro da Relação do Porto – pelo que, possivelmente, aí não conheceu Camilo Castelo-Branco. O escritor não se refere a Tomás Teixeira Nunes nas Memórias do Cárcere escritas na cela n.º 12 daquela cadeia num período conturbado da sua existência e em que a escrita funcionou como um salvatério para a sua alma amargurada.
No entanto, no curso da narrativa, editada em 1862 mas redigida enquanto durou a detenção (1/10/1860 a 16/10/1861), Camilo refere-se, pelo menos três vezes, a um carcereiro ("Fui visitado pelo carcereiro Nascimento..."; " ... tinha injuriado o inofensivo Nascimento" e "O carcereiro era um alferes de veteranos... Era de supor que o senhor Nascimento (já lá está na presença do Rei dos reis)...". Cita, igualmente, e por duas vezes um outro carcereiro ("Quando o carcereiro interino, um tal Guimarães - despedido depois como ladrão -"; "... demitindo-o virtualmente por ladrão. Chamava-se ele José Francisco Guimarães...")*.
Possivelmente Tomás Teixeira Nunes terá entrado ao serviço da Cadeia da Relação depois da libertação de Camilo e Ana Plácido. Se fosse anteriormente o carcereiro da Relação, teria, certamente, participado na autorização que permitiu as deambulações do escritor pelo estabelecimento o que facilitaria encontros - nem que fosse apenas de troca de olhares - com Ana Plácido, aí também enclausurada na ala das mulheres em virtude do caso de adultério de que ambos eram acusados. Teria, igualmente, conhecimento da autorização concedida a Camilo para, por motivos de saúde, sair a tomar ares na cidade, oportunidades que o escritor não perdia para arrostar a inimizade da burguesia portuense. Na cadeia, escreveu Camilo “Amor de Perdição”, um dos grandes romances da literatura romântica portuguesa.
Tomás Teixeira Nunes seria, então e igualmente, carcereiro de Abílio da Cunha Moraes (1825-1871), o relojoeiro/fotógrafo que daí partiu para o degredo em Angola em 1863, condenado por falsificar moeda e acusado de ter subornado meia Coimbra, de jornalistas a juízes. Abílio tornar-se-ia o primeiro da família Moraes a fotografar a África ocidental portuguesa. Os filhos seguir-lhe-iam os passos, primeiro Augusto César, depois José Augusto seguido por Joaquim Júlio e finalmente pelo irmão mais novo Alfredo Adelino Cunha Moraes. Mas estas são outras estórias, também envolventes, também na senda de enredos camilianos. Do que temos a certeza é de que o carcereiro Tomás Teixeira Nunes aí viveu, na Cadeia da Relação do Porto, entre 1865 e 1873.



Henrique Nunes e Júlio Siza, ca de 1870 © Colecção Teresa Siza

Pouco depois do casamento Júlio Siza foi para Lisboa onde trabalhou para o cunhado no atelier de Fillon (1825-1881), que Henrique Nunes ficou a dirigir quando o francês se ausentou para participar na Comuna de Paris. Trabalhou, ainda, noutros estúdios da capital: na Casa Fritz e como operador do Atelier Camacho na sua casa de Lisboa na Rua Nova do Almada, n.º 116. Daí passou para o estúdio de Camacho na Rua de S. Francisco n.º 21 no Funchal, Madeira. Isto mesmo anuncia João Francisco Camacho no Diário de Notícias do Funchal de 9 de Setembro de 1881. No ano seguinte já está a trabalhar na casa Photographia Vicentes (http://www.nesos.net/imgdocs/nesos_publicar/exposicoes/museu/contacto.html) na Rua da Carreira, já depois de remodelada.
Laurentina, a filha do carcereiro, deu oito filhos a Júlio Siza, alguns não sobreviveram à nascença. Os mais velhos, Manuel Nunes Siza (Lisboa, 1867–Brasil, 1938) e Henrique Nunes Siza (Porto, 1869–Brasil, 19??), seguiram a profissão do pai que os terá iniciado no oficio já em Demerara (região da então Guiana britânica, nomeada pela alta qualidade do açúcar aí produzido). Manuel Nunes Siza teve estúdio em Barbados, W.I. (West Indies), o “Anglo-Luzo Photographic Gallery”; Manuel assinava “Nunes Siza” ou “M.N.Siza”. Henrique Nunes Siza também teve estúdio, o “Union Photographic Gallery”, igualmente em Barbados, nas ilhas das Caraíbas.



.....................

Júlio Siza na casa Photographia Vicentes na Madeira, quando aí foi operador. No cartão ao lado, Júlio Siza com os filhos Manoel e Henrique Nunes, a 15 de Setembro de 1887 no seu estúdio no Guiana Britânico. © Colecção Teresa Siza.


Quando Júlio Siza resolve emigrar, entre 1884 e 1897, fixa-se na Guiana Britânica (hoje Guiana), primeiro em Demerara e depois em Georgetown onde abriu o “Lusitana Photographic Gallery”, na Water Street, como podemos ler no Directório Britânico do Guiana de 1887.
Numa das suas viagens à Madeira em 1889, vai contrair o segundo matrimónio com D. Guilhermina Alves de quem terá 2 filhos. Dídio Alves Siza (Geogetown, 1890 - ?) e Ângela Alves Siza (Georgetown, 1895 – Belém do Pará 1986).
Cerca de 1897 Júlio Siza decide trocar Georgetown por Belém do Pará. O estúdio da Guiana poderá ter sido comprado pelo industrial da fotografia C.K. Jardine. Júlio Siza chegou ao Brasil a 3 de Maio de 1897, em Belém do Pará abriu estúdio na Rua do Conselheiro João Alfredo, n. º 7, a “Photographia Amazónia”. Soube recentemente que de mão em mão, a Photographia Amazónia (depois Fotografia Amazónia) durou pelo menos até aos anos 1960's. Mas ninguém sabe se conservava ou não o espólio inicial.
Apresentou trabalhos nas exposições de Londres de “1884 e 1886” e em Chicago, 1893. Foi premiado com a medalha de Bronze na Colonial and Indian Exhibition (Londres 1886) e em 1892-93 recebeu a medalha de Bronze na World Columbian Exposition, (Chicago) e em 1894 a medalha de Mérito na Berbice Industrial Exhibition.



Diploma World Columbian Exposition, 1893 Chicago


Diploma World Columbian Exposition, 1893 Chicago © Colecção Teresa Siza



“Os Estados Unidos da América, por acto do seu Congresso, autorizaram a Comissão do Mundo Colombiano na Exposição Internacional que teve lugar na cidade de Chicago, Estado de Illinois, no ano de 1893, premiar com uma medalha pelo mérito específico descrito em baixo em nome de um júri que exerce o papel de examinador, após ter sido encontrado um grupo de jurados internacionais, a Júlio Siza, Georgetown, Guiana Britânica.”

W.F. Terry, (President of Department Committee); Alice M. Fletcher, (Individual Judge); (?), (Director General); (?), (Chairman Executive Committee of Awards); T. W. Palmer, (President, World's Columbian Commission); J. J. Dickinson, (Secretary, World's Columbian Commission).

No diploma da medalha de Mérito que recebeu em Chicago está descrita a versatilidade do fotógrafo, permitam-me expor aqui a tradução de uma parte desse documento que concerne ao trabalho do fotógrafo português:
“Esta colecção de fotografias representa as diversas raças e gentílicos da Guiana Britânica. Os chineses e os coolies, ou indianos orientais, representam as importadas classes trabalhadoras; o negro, a raça herdada dos tempos da escravatura africana; as tribos de índios da floresta, savana e costa, a etnia nativa do país; os tipos de descendentes de espanhóis, franceses, crioulos, escoceses e ingleses. A série mostra adultos e crianças e proporciona um interessante estudo das raças e das modificações climáticas. Existem imagens de habitações nativas, assim como cenas de floresta, além de testemunhos do actual e considerável desenvolvimento do país que está sob a influência dos europeus. A totalidade da colecção é um valioso contributo para a compreensão do povo da Guiana britânica, assim como do seu ambiente.”
“Fotografias que ilustram as casas, indústrias e pessoas da Guiana Britânica”

Pela descrição são as imagens reunidas num álbum com 86 fotografias que se encontra na Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library. As que seguramente são de Siza representam: a High Street e a Câmara (Town Hall) de Georgetown (248x199mm); uma “vista” de uma aldeia índia nas margens do rio Masuruni, com um grupo de índios e um europeu posando em frente de uma cabana (242x191mm); uma sepultura de índio Orinoco numa clareira, com o cadáver envolto em folhas de palmeira e amarrado a um cavalete de madeira, vendo-se ainda 3 índios ao fundo (171x235mm); um acampamento de pesquisadores de ouro numa clareira, com trabalhadores europeus e da Guiana posando para o fotógrafo em frente das tendas; um homem ao fundo mostra uma bandeira inglesa (243x193mm).





Aldeia índia nas margens do rio Masuruni, com um grupo de índios e um europeu posando em frente de uma cabana (242x191mm). Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library




Acampamento de pesquisadores de ouro numa clareira, com trabalhadores europeus e da Guiana posando para o fotógrafo em frente das tendas; um homem ao fundo mostra uma bandeira inglesa (243x193mm). Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library


Como se pode concluir estamos perante um grande fotógrafo. Acrescente-se o facto de Júlio Siza e os dois filhos Manoel e Henrique não serem os únicos portugueses fotógrafos a trabalharem naquela época na região.

High Street e a Câmara (Town Hall) de Georgetown (248x199mm) Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library.




Georgetown, Market Square Looking South. Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library

Escreve Maria Cristina no blogue, Cultura Pará que: “Segundo alguns poucos e primários registros locais, o primeiro fotógrafo a chegar na Amazônia, atraído pelo exotismo da região, foi Charles Fredricks, em 1844. Depois de uma passagem conturbada, retornou em 1846 e inaugurou o 1º estúdio fotográfico, dando início a uma prática que veio confrontar o medo diante do novo, porque supunha-se que aquele invento "roubava-lhes a alma". Sem sucesso, permaneceu apenas três meses na cidade onde oferecia "em superior grau de perfeição (..) uma semelhança de seu original (...) por modicos preços".
Junto com a comitiva do Imperador D. Pedro II, que veio a Belém para a Abertura dos Portos da Amazônia ao Comércio Exterior, chegou Felipe Augusto Fidanza, que aqui se estabeleceu e se tornou o maior nome da fotografia paraense, abrindo o Photo Fidanza, maior referência na cidade, que se manteve por aproximadamente 100 anos sobressaindo-se em qualidade e solidez, não obstante os outros estabelecimentos de igual porte que já existiam no final do século, como o Photo Oliveira, inaugurado em 1884.” e também a Photographia Amazónia de Júlio Siza, não referenciada por Maria Cristina mas, da maior importância. Isso podemos constar nas imagens em postais e no álbum “Belém da Saudade”, algumas das fotografias do álbum foram reproduzidas em selos.
Teresa Siza mostrou-me ainda belíssimas fotografias que o bisavô fez da filha Ângela e dos netos. Fotografias à maneira do escritor Lewis Carroll, pseudónimo de Charles Lutwidge Dodson, (1832 – 1898) ou à maneira da fotógrafa inglesa Julia Margaret Cameron (1815 – 1879).
Júlio Siza era mais que um simpatizante da causa republicana e, talvez que tal facto não seja alheio ao seu regresso à Pátria em 1910, ano da implementação da Republica. Veio acompanhado da filha Júlia, o genro Joaquim Vieira, os 6 filhos do casal e a 2ª mulher; não há a certeza que tivessem regressado para ficar. Se pensavam regressar ao Brasil isso não aconteceu. Guilhermina faleceu no Porto em 1915 e Júlio Siza quatro anos depois em Matosinhos, em 1919. No mesmo ano da morte do pai, Manuel Nunes Siza abria ainda um pequeno estúdio a “Fotografia Ideal”, na Rua 28 de Setembro no Reducto, bairro de Belém do Pará, Brasil. Desconhecemos a data da morte de Henrique; Manoel Siza, morreu em Belém do Pará em 1938. Teresa Siza preparou recentemente uma exposição sobre a vida do fotógrafo Júlio Siza, que inaugurou em Belém do Pará, no Brasil, no dia 3 de Junho, e que está inserida numa homenagem ao Arquitecto Álvaro Siza Vieira. Trabalha também num livro sobre o fotógrafo Júlio Augusto Siza, que terá texto de Maria do Carmo Serén e que todos aguardamos impacientemente.
Este texto só foi possível graças a Maria Teresa Melo Siza Vieira Salgado Fonseca (Matosinhos, Portugal, 19 de Fevereiro de 1948). Licenciada em Filosofia, (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1970); Professora efectiva do ensino secundário de Filosofia, Comunicação Social e Fotografia (1970-1977); Professora do Curso Superior de Fotografia da Árvore, Cooperativa de Ensino Superior e Artístico (1984-1989); directora do Curso (1986-1989); Directora-adjunta e comissária de exposições dos Encontros de Fotografia de Coimbra (1991-1996); Directora do Centro Português de Fotografia / Ministério da Cultura desde Junho de 1997 até 2007. Fotógrafa e autora de textos sobre crítica e história da fotografia. Obrigado Teresa.

Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.

* V. Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, edição da Parceria A. M. Pereira, comemorativa da inauguração da sede do Centro Português de Fotografia na Cadeia da Relação do Porto (Outubro de 2001), prefácio e fixação do texto de Aníbal Pinto de Castro. Referências aos carcereiros: Nascimento (pp. 98, 195 e 435) e Guimarães (pp. 251 e 309).




.
.

quarta-feira, junho 18, 2008





Edward Steichen no Ateneu Comercial do Porto


Estávamos em 1964, Edward Steichen (1879-1973) entrava-nos pela casa adentro com a exposição que comemorou em 1961 os seus 82 anos, 65 de actividade fotográfica, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Três anos passados, no Ateneu Comercial do Porto, são expostas as mesmas 163 fotografias, escolhidas entre 30 mil negativos e cópias, que constituíram o certame do MOMA. (Esta exposição esteve também na Dinamarca, Noruega, Suécia e Inglaterra).
Steichen nasceu em 1879, no Luxemburgo, filho de camponeses que emigraram para os Estados Unidos da América em 1881. Entre 21 de Outubro e 19 de Novembro de 1899 expõe, pela primeira vez, as suas fotografias no Segundo Salão de Filadélfia. Foi um dos fundadores da “The Photo-Secession” e, os seus trabalhos começam a aparecer na conhecida revista trimestral “Camera Work”.
Mais tarde, em 1902, viria a tornar-se amigo de Alfred Stiegliz e com este abriu a Gallery 291, na 5. º Avenida, onde acabaria por expor pintura e fotografia. Em 1947 é nomeado director de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, onde em 1955 é responsável pela exposição “The Family of Man”, vista posteriormente em todo o território americano e por mais de 9 milhões de pessoas em diversos países em quase uma centena de exibições.
Steichen trabalhou para os serviços fotográficos do exército americano tanto na primeira grande guerra mundial, como mais tarde já com 60 anos na segunda grande guerra mundial, onde se alistou como voluntário.
Destacou-se nas diversas correntes da fotografia que se lhe atravessaram na caminhada da vida. Em 1923 chefiou como fotógrafo na Vanity Fair e Vogue. Retratou Greta Garbo, Charles Chaplin, Rodin, Hollande Day, e muitos outros. Emotivo, procurou conseguir um lugar para a fotografia na arte.
.



Solidão F. Holland Day, 1901
O fotógrafo Fred Holland Day (1864-1933) fotografado por Edward Steichen

.

Numa edição da Thames & Hudson “Edward Steichen Lives in Photography”, Todd Brandow & William A.Ewing, 2007, mostram-nos o que estará na exposição organizada pela Foundation for the Exhibition of Photography - FEP, Minneapolis, e o Musée de l’Elysée, Lausanne. Esta mostra já esteve no Jeu de Paume, Paris entre 9 de Outubro e 30 de Dezembro de 2007; Musée de l’Elysée, Lausane, entre 17 Janeiro e 23 de Março de 2008; Palazzo Magnani, Reggio Emília entre 12 de Abril e 8 de Junho de 2008 e finalmente, a última das 5 exibições vai estar no Museu Nacional Centro de Arte Moderna Reina Sofía em Madrid entre 24 de Junho e 22 de Setembro de 2008. Bem ao jeito de quem passar por Madrid “lugar” onde está a decorrer a Photoespaña 2008.
.

Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.
.


Desdobrável da exposição no Ateneu Comercial do Porto, 1964
.
.

domingo, junho 08, 2008

.
.
Em 23 de Outubro de 1998 a revista Indy, suplemento do jornal Independente, publicava “Um olhar português”, um artigo de António Barreto sobre o fotógrafo Gérard Castello-Lopes. Assim escrevia o sociólogo / fotógrafo a propósito de “Lisbonne d’un Autre Temps” – (“Lisboa de Outras Eras”), uma exposição patrocinada pelo Instituto Camões de Paris em 1998.




“Um olhar Português”


Ao contrário de Fernando Pessoa, Gérard Castello-Lopes não tem heterónimos, tem vidas. Várias e sucessivas. Falo do fotógrafo, que é o que nos traz aqui, não do homem, cuja unidade parece maior e não cabe em meia dúzia de páginas. Para mal dos nossos pecados, e dos dele, espero, não nos deu tantos anos de fotografia quantos os que leva de vida adulta, como deveria ser. Começou a fotografar, em 1956, com mais de trinta anos, idade difícil para uma arte que exige candura na aprendizagem. Fotografou durante uma década, talvez menos. Depois, parou. Perdera a ousadia. Não se sentiu mais capaz de, afirmar, agredir as pessoas na rua, fotografar quem não o deseja. Tanto mais quanto considera que, naturalmente, ninguém quer ser fotografado. Em todo o caso, ninguém o quer ser de surpresa, por um estranho. Durante vinte anos, pôs de lado as Leicas. Percebe-se hoje, pelo que diz e como fotografa, que o sofrimento não o abandonou. Com, todavia, um lenitivo: estudou, pensou e amadureceu. Em meados dos anos oitenta, regressou. Para nosso bem. E dele, espero.
Os bons fotógrafos são quase todos tímidos. Conheço bastantes. Alguns são-no mesmo exageradamente. Julgo percebê-los. Fotografar substitui o acto de falar com os outros. Conhecê-los. Viver com eles. A fotografia, a imagem preservada, será o modo a que tímidos recorrem para manter uma qualquer relação com o real, congelado esteja este. Todavia, os tímidos não são grosseiros, bem pelo contrário. É, muitas vezes, a delicadeza que os fez assim. Os verdadeiros tímidos não têm medo, receiam magoar. O que quer dizer que se interessam: pelo mundo, eventualmente pelos outros. Creio que Gérard Castello-Lopes será um “grande tímido”, daqueles que esconde a insegurança na erudição e na ironia. Mas, estranhamente, fala mais do que fotografa. Escolhe as suas palavras, pesa as frases e selecciona citações. Com o mesmo cuidado com que deve separar as suas fotografias, elegendo as melhores, muito poucas, deixando sem vida a maior parte. O que há de singular, com Gérard, é que foi a timidez que o levou, não a fotografar, mas a deixar de praticar aquele que poderia ter sido o seu ofício. Esta será a primeira exposição daquele longo período de “pousio”, que aliás, preparou uma nova fertilidade. Mas há uma segunda explicação, que não sei se é dele, mas tenho por certa: o real limita a sua criação. Sempre foi. Este grande amador viu-se um dia preso pelo real, condicionado pela fotografia e fechado dentro das fronteiras do programa da “arte empenhada”. Sem necessidade de, da sua arte, fazer profissão, preferiu abandonar. Até que o mundo dos anos oitenta e uma sabedoria longamente decantada lhe fizeram ver que a criação não era pecado e que a fotografia, apesar do constrangimento essencial, permitia voar e autorizava que o espírito perdesse peso e amarras.



.
.
Gérard, cultor de paradoxos, fotógrafo parcimonioso, falador impenitente, ajudou-me involuntariamente a consolidar uma opinião que escondi durante anos: uma imagem não vale mil palavras. Nunca gostei desta invenção de manipuladores de consciências, de publicitários e de provocadores de emoções fáceis. As imagens, e conheço algumas, podem estar na origem de choques emocionais, levar-nos às lágrimas, causar-nos nojo e estimular-nos na revolta. Mas não substituem a palavra. Enriquecem-na, provocam-na e complementam-na. Dispensá-la? Nem pensar. Hoje sabe-se que a imagem, com arrogantes pergaminhos de verdade, pode ser a maior mentira de que os homens são capazes. Com a imagem se faz, desfaz e refaz a história. Mesmo as fotografias realistas, testemunhos, verdadeiras na sua realidade, fortes na sua crueldade, podem esconder mundos e outras verdades. Ou antes, escondem mesmo. De todas as guerras, de todos os regimes políticos, de todos os amores sobram fotografias que não são tudo, nem toda a verdade, nem só verdade, por vezes nem sequer verdade.
As fotografias de Gérard pedem mil palavras. As dele, de preferência, a que, com volúpia, nunca se nega. Mas também as nossas. As de quem o vê ou ouve. As de quem observa as suas imagens. As dos outros artistas. E as dos poetas. Juntem-se estas fotografias lisboetas aos poemas, não de Fernando Pessoa, mas de Alexandre O’Neill, e veremos que é o casamento feliz. Não há fusão, igualdade ou sobreposição. Há sensibilidades próximas. E uma infinita e doce ironia de que só são capazes os que não se levam demasiado a sério. Apesar da diferença e do confronto. E do conflito.
A Lisboa de Gérard é quase a Lisboa de Pessoa. Física e cronologicamente. As ruas, o estendal, as crianças, os velhos e os burgueses podem ser os mesmos. Uma ou duas décadas separam ambas. Para o tempo, era pouco. Mas estética e humanamente, a Lisboa de Gérard não é a Lisboa de Pessoa. A cidade de Pessoa é triste, como ele próprio. Irreal como o poeta. “Sem corpo”, disse-me um dia Gérard. É uma cidade que Pessoa quereria “triste e alegre”, mas que é apenas a “cidade da minha infância pavorosamente perdida” (Álvaro de Campos). Lisboa para Pessoa é “o meu lar” (Bernardo Soares). Lisboa é uma aldeia com medo de parecer cidade. Lisboa é o amor da sua memória, a memória do nunca conheceu mas inventou. Lisboa é a aldeia e o espaço que nunca teve. Lisboa é geografia inventada para um espírito sem carne. Lisboa é um heterónimo.
.


.............
.
.
A Lisboa de O’Neill é uma cidade. Como a de Castello-Lopes. Matreira e empertigada, mas cidade. Ridícula e aperaltada, com vergonha de parecer aldeia, mas cidade. Decadente, mal arrumada e com roupa a secar ao sol, mas cidade. De calcário, estuque e azulejos. De casais a passear na Baixa. De chefes de repartições com fatos de três peças. De faias e malandros. Do cego sincero e do cego que vê com olho maroto. De miúdos a jogar à bola e de cavadores diante da Torre de Belém. É a cidade que olhamos, que ambos olharam com ternura e raiva. “Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, na terra onde nasceste e eu nasci?” Tenho a certeza de que Gérard Castello-Lopes, ao ler este verso de Alexandre O’Neill, pensa que é consigo.
A liberdade de Castello-Lopes foi também a sua prisão. Pelo menos viveu-a como tal. Nos anos cinquenta em Portugal não se podia ser inocente. Nem a liberdade interior, refugio de tantos criadores, era possível. Ainda por cima, para alguém que queria viver com a imagem. A liberdade, nas décadas do realismo e do empenhamento político ou moral, era inseparável da solidariedade. Para ambas, o outro e os outros estavam no centro do mundo. Mas, nem todos, aliás. Não era a condição do homem que estava no centro do mundo. Mas o homem e sua condição. Quer dizer, o oprimido, o pobre, o trabalhador e o resistente. A “família do Homeme” parecia, e talvez fosse em certa medida, uma armadilha ideológica dos poderosos.
Se havia artes, letras e formas de expressão para as quais o empenhamento e o real eram difíceis ou discutíveis (a musica, a dança...), para outras, eram imediatos e necessários. Para a fotografia, era a sua essência. Naqueles tempos, o mito do real dominava. Nem tempos de certezas. A principal era real. Este bastava para denunciar as injustiças.
Por imperativo moral, por espírito do tempo e talvez porque lhe faltasse o talento da pintura, Gérard Castello-Lopes fez o seu programa de empenhado e realista. Estudou Cartier-Bresson e Eugene Smith, fez deles os seus mestres. Compreende-se agora que a eles nunca se limitou e que há, na sua fotografia, uma tensão libertadora, uma pulsão para transgredir as normas e as regras. Foi a sua primeira vida. Desempenhou-se durante aqueles poucos anos, magistralmente. São desse tempo as fotografias reunidas neste conjunto inspirado por Lisboa.
São um formidável testemunho daqueles anos portugueses. Não são documentário, que Castello-Lopes não foi jornalista. Mas são exemplo e prova da experiência social de um artista. Estas fotografias mostram já que o seu autor não está totalmente à vontade dentro de fronteiras do realismo militante. O universal espreita em cada imagem de circunstância. Em todas elas, a criação parece empurrar a realidade. Fotografar o trabalhador, o pobre, o digno oprimido ou o vilão satisfeito pode ser o mesmo que agredir o ser humano. Mas programa empenhado exige a agressão, pois permite o testemunho. O fim, nobre, vale os meios, duvidosos. O Fotógrafo rendeu-se. Abandonou a sua arte. Viveu mais de vinte anos a lutar contra o seu excepcional talento. São décadas de silêncio fotográfico. Ou de cegueira auto-infligida. Desta sua segunda vida sofremos nós: fomos esbulhados de uma obra de criação de que nunca seremos compensados. E os portugueses bem precisavam dela. Com reduzidas tradições fotográficas, com poucos talentos, com décadas de arte e cultura dirigidas (pelo Estado sobretudo, mas pela oposição também, por vezes...) e com uma eficientíssima censura do espírito, Portugal ficou pobre neste que é o modo de expressão do século XX, a imagem.



.
.

A terceira vida de Gérard começou nos anos oitenta. Amigos sabedores e de gosto fotográfico exigente foram acordar as “imagens latentes”. Ou jazentes, com mais propriedade. Voltaram a dar-lhe vida, isto é, mostraram-nas. Viu-as quem quis, percebeu-as quem pôde. Os mais livres apreciaram-nas como grande descoberta.
Curiosamente, o efeito não foi o de uma ressurreição mas o de um renascimento. A exposição do seu passado, permitiu-lhe romper com ele. Com uma nova linguagem e um novo programa. Deixou de agredir as pessoas. Já não sente necessidade de, pela imagem, testemunhar a condição humana. Retornou com mais liberdade, a pulsão criativa. A natureza, os objectos, a matéria, as formas e as sombras povoam as suas fotografias contemporâneas. Mas atenção: olhe-se atentamente para estas novas imagens. Os corpos ganham movimento. A luz e a sombra transformaram-se em objectos e sujeitos de desejo. A leveza e a agilidade surgem como qualidades dos pesos mais pesados e dos materiais mais inertes. Não conheço uma fotografia que não tenha um vestígio animado. Seja pela humanidade dos objectos, seja pela presença discreta, afastada, imperceptível, do indivíduo e da sua acção. Seja porque Gérard, à sua conta, decidiu animar e soprar-lhe vida. Foi possível corrigir-se, mas manteve-se sem emenda.

Gérard Castello-Lopes por António Barreto, in revista Indy de 23 de Outubro de 1998, Jornal Independente
.
.

quarta-feira, maio 28, 2008

.
PhotoEspanha 2008 no Museu Colecção Berardo




Será que a decadência dos edifícios da época moderna nos está a dizer algo mais profundo?
Os trabalhos da exposição colectiva de fotografia UTOPIA incidem sobre um ponto comum – a arquitectura dos anos 50 e 60. Nessas duas décadas, vários arquitectos, espalhados pelos quatro cantos do globo, projectaram edifícios construídos para um mundo “utópico” e visionário. E esses mundos abriam portas a um novo tipo de espaço social: aberto, transitório, elevado, ligeiro, realizado com novos materiais como o cimento, o aço e o vidro. Tudo isto era o mundo moderno e ele seria desenhado pelos arquitectos, que acreditavam poder resolver, graças à tecnologia do aço e do cimento, as distintas necessidades contemporâneas. Hoje em dia, o futuro não parece nada utópico. Actualmente, ninguém acredita que alguma ideologia possa solucionar os problemas complexos com os quais somos confrontados.
UTOPIA é uma co-produção do Museu Colecção Berardo e do PhotoEspaña 2008 (XI Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais). Na exposição encontram-se representados Mathieu Pernot, Frédéric Chaubin, John Riddy, Stuart Whipps, Alex Hartley, Gayle Chong Kwan, Wiebke Loeper, Arni Haraldsson, Tacita Dean, Amir Zaki.

UTOPIA estará patente ao público de 29 de Maio até 27 de Julho, no Museu Colecção Berardo, em Belém.
.

quarta-feira, maio 14, 2008

Comemoração do Dia Internacional dos Museus (18 de Maio) sob o lema genérico

.
“Venha passar a noite com Camilo”

de 13 a 25 de Maio


“O Porto dos inícios do séc. XX: fotografias estereoscópicas de Emílio Biel”

Exposição


A mostra consiste na projecção de estereogramas de Emílio Biel pertencentes ao Museu de Ciência da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto acompanhada de material do acervo do CPF designadamente uma câmara estereoscópica da colecção António Pedro Vicente, estereoscopias e visores estereoscópicos. As peças de exposição serão acompanhadas de textos explicativos que darão a conhecer o princípio da estereoscopia, o percurso profissional de Emílio Biel e também a história custodial e arquivística desta colecção. Os visitantes terão ainda a oportunidade de percepcionar as imagens com recurso a visores estereoscópicos, apercebendo-se na noção de profundidade de duas imagens justapostas.

Uma exposição do Museu de Ciência da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em colaboração com o CPF/DGARQ.


Espectáculo “Cadeia”


Este espectáculo foi especialmente concebido para a assinalar o Dia Internacional dos Museus e adaptado ao espaço da ex-Cadeia e Tribunal da Relação do Porto que é, desde 2001, sede oficial do Centro Português de Fotografia. A partir de aspectos das vivências prisionais, com especial destaque para a figura de Camilo, mas ultrapassando a personagem do próprio escritor, encontraremos outros referentes, tais como, Ana Plácido ou o Zé do Telhado serão recriados por um grupo de actores que conduzirão os visitantes pelos espaços e vivências do passado neste emblemático edifício e suas envolvências.

Estão programadas duas sessões do espectáculo, que incluirá leituras dramatizadas. A primeira sessão terá início às 21.30h e a segunda às 23.00h. Às 00:00h será servido um Porto de Honra no Átrio da actual entrada principal do edifício.

Neste dia, as instalações estarão abertas ao público das 15.00h às 02:00h. Como em qualquer época do ano, a entrada é gratuita, bem como a assistência a cada um das sessões do espectáculo. Cada sessão está sujeita a uma lotação máxima de 50 pessoas. Os interessados deverão inscrever-se no próprio dia em formulário a disponibilizar à entrada do edifício meia hora antes do início de cada sessão.
17 de Maio (Sábado) – sessões às 21.30h e às 23.00h
Para maiores de 12 anos



Fotografia Paulo Catrica

Palestra/visita ao Edifício da Ex-Cadeia da Relação do Porto


“Palácio da Relação e Cadeia do Porto: Percursos, espaços e memórias”
Pretende-se nesta Visita/Conferência recordar a história do edifício, desde os objectivos que presidiram à sua construção, à sua funcionalidade ao longo de dois séculos, enquanto cadeia e tribunal. Nesse sentido durante a visita vão percorrer-se os espaços mais significativos, evocar memórias, lembrar personagens.

Oradora: Professora Doutora Maria José Moutinho, docente associada com agregação do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Tempo previsto: 2h/2,30h
Dia 18 de Maio (Domingo) – 15.30h
.
..

quinta-feira, maio 08, 2008

Um “Olhar” sobre a APPh.

na revista Fotodigital






"A 7 de Julho de 1994, o “Olhar”, suplemento editado pelo jornal “A Capital” entre 1993 e 1999, publicou um artigo sobre “Finalistas de fotografia na AR.CO expõem dependências”. Aí, Sónia Laima descreve as preocupações dos então jovens fotógrafos. Estes “interrogavam-se se seria viável criar uma associação de fotógrafos, visto que já outras tentativas foram feitas nesse sentido e todas demonstraram que o espírito dos Portugueses, quando toca à fotografia, é, acima de tudo, individualista, impossibilitando qualquer tipo de corporativismo que não seja o dos amigalhaços”.
Mas os sonhos e a esperança duram. Se umas tentativas de criar associações de fotógrafos têm falhado, outras, aqui e ali, têm revelado uma longevidade surpreendente. O mesmo não se pode dizer sobre associações que, a nível nacional, se preocupem com a coisa fotográfica. A única que existiu, efémera, nasceu já lá vai um século depois de terem sido aprovados, a 27 de Junho de 1907 e por iniciativa de Arnaldo da Fonseca e Júlio Worm, os estatutos da Sociedade Portuguesa de Photographia. A 14 de Abril de 2007, no ano em que se assinalava o centenário dessa associação, nascia a APPh., Associação Portuguesa de Photographia. De então para cá, temos trabalhado para que os alicerces deste projecto lhe permitam longevidade.
Aquando da realização do primeiro leilão de fotografia antiga organizado, em Junho de 2006 pelos primos Trindade da Potássio 4, por iniciativa de Ângela Camila e António Faria, um grupo de amigos da fotografia, de amadores, de interessados, de estudiosos e de coleccionadores de fotografia aproveitou a oportunidade para se reunir num jantar. Gesto que repetiram pouco depois. Estes encontros ajudaram a revelar um desejo comum: o de criar uma associação vocacionada para o estudo, a discussão, a divulgação, a promoção da fotografia e dos fotógrafos.
Queríamos conhecer-nos melhor, saber o que os outros faziam, que imagens, livros, máquinas ou fotógrafos preferiam. Recordámos tempos passados, quando, há vinte ou trinta anos, era apenas um punhado deles que gostava de fotografia e se interessava pelas imagens antigas. Lembrámo-nos de que nos víamos, por acaso, nos alfarrabistas e nos antiquários. Tínhamo-nos encontrado “no Almarjão”, o Zé Maria da Livraria Histórica e Ultramarina, de Lisboa; ou “no Nuno”, o Nuno Canavês da Livraria Académica, no Porto; ou “nos Ferreiras”, Pai e Filhos, do Porto; ou “nos Trindades”, da Rua do Alecrim, em Lisboa; ou em tantos outros locais de culto e peregrinação. Verificámos que, agora, já éramos muitos, umas dezenas, que cultivavam o género e a arte. Uns fazem fotografia, outros estudam-na. Uns coleccionam imagens, outros sabem ler fotografia. Todos conhecíamos os nomes consagrados. O António Pedro Vicente, que, quase sozinho, durante décadas, presidiu a uma das melhores colecções de aparelhos fotográficos da Europa, a qual agora reside no Centro Português de Fotografia, na Cadeia da Relação, no Porto. O António Sena, em tempos proprietário e animador da galeria “Éther, só não vale tirar olhos”, em Lisboa, ulteriormente autor da principal História da fotografia portuguesa, a “História da imagem fotográfica em Portugal, 1839-1997”. O Jorge Calado, um catedrático de química, amante de música e fotografia, que nos habituámos a ler nos jornais ou em catálogos e que se tornou indispensável. O José Pessoa e a Vitória Mesquita, antigos do Arquivo Fotográfico de Lisboa e actuais do Inventário Artístico de Portugal, entre os primeiros a fazer da preservação e do restauro de imagens fotográficas a sua profissão e a sua paixão. Os irmãos Alexandre e António Ramires, pioneiros em Coimbra e que ao país dão lições de estudo e divulgação da fotografia histórica. O João José Clode, com uma das melhores e mais bem conservadas colecções. O Eduardo Nobre, coleccionador e escritor, com particular sabedoria em tudo o que é Casa Real, famílias nobres e costumes militares. O Luís Pavão, um Mestre da conservação/restauro e conhecedor como poucos da fotografia antiga. O João Loureiro, especialista em imagens e postais fotográficos ultramarinos, com pelo menos uma dezena de livros publicados. A Luísa Costa Dias, da Fototeca Municipal de Lisboa, onde tem obra feita. A Teresa Siza, fundadora e tenaz directora do Centro Português de Fotografia. A Isabel Corte Real e o Sérgio Mah, que estiveram à frente do Lisboa Photo. O José Luís Madeira, um dos veteranos destas artes e destes circuitos. O Sérgio Gomes, um dos mais novos, mas já com obra no “Público” e na “blogosfera”. Luís e Bernardo Trindade, da Potássio 4, responsáveis pelos primeiros leilões de fotografia feitos em Portugal. O José Manuel Ferreira, perito da estereoscopia fotográfica, com experiência internacional da blogosfera. António Valdemar, Paulo Catrica, Luís Saragaa Leal (PLMJ), Rita Barros, Albano da Silva Pereira (dos Encontros de Coimbra), Carmen Almeida, Rui Prata (dos Encontros de Braga); Emília Tavares (do Museu do Chiado); Silvestre Lacerda (da Torre do Tombo); Manuel Magalhães (e o Grupo Ideia e Forma); João Vilhena, Gérard Castello-Lopes, José Rodrigues, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira, António Pedro Ferreira, Rui Ochoa, Eduardo Gajeiro, Paulo Nozolino, Daniel Blaufuks, Isabel Soares Alves, Maria José Palla, Nuno Borges, Delfim Sardo, Eduardo Nery, José Afonso Furtado, Marta Sicurella, Mafalda Ferro, Pedro Franco, Pedro Aguilar, Teresa Margarida Rebelo: uns juntaram-se a nós, outros gostaríamos que se juntassem também.
O inevitável sussurro começou depressa. “Não podemos ficar por aqui”! Muito depressa surgiram a palavra e o desejo: “E não deveríamos fazer uma associação, ter um local, fazer um Blogue, organizar um sítio na Internet, publicar uma revista...”? Todos queriam arranjar uma maneira de poder prosseguir o diálogo e a troca de informações e de contactos, eventualmente trocar imagens e aparelhos, mostrar as respectivas colecções, escrever sobre o que conheciam, aprender o que não sabiam. Quando uma boa ideia começa a caminhar, não é possível travá-la. Esta já deu uns passos. Acarinhada por vários entre nós, a ideia começa a ser realidade. Já existem estatutos, já são conhecidos os primeiros voluntários que querem dar o seu contributo. Já existe um Blogue que se destina, em primeira mão, a divulgar a Associação (APPh) e a sua missão. Já foi eleita uma direcção que prepara o seu trabalho, designadamente a angariação de sócios, a reflexão sobre as hipóteses de edição de uma revista / boletim, instalação de um sítio na Internet e execução de um logótipo e imagem gráfica concebidas pelo designer Henrique Cayatte. Sem esquecer outras iniciativas, nas quais meditamos, como por exemplo a organização de exposições e edições.
Além do que acima fica referido, o que pretendemos desta Associação? Defender os interesses da fotografia e dos fotógrafos. Contribuir para melhorar o papel da fotografia na cultura e na comunicação. Estimular a discussão e suscitar os comentários sobre qualquer assunto relativo à fotografia. Provocar o sentido crítico. Ajudar à divulgação de iniciativas que possam contribuir para o reforço da fotografia em Portugal. Contribuir para a construção de uma base de dados permanente sobre fotógrafos, espólios, coleccionadores, imagens importantes, colecções, leilões, acontecimentos e exposições. Divulgar galerias permanentes e temporárias. Mostrar fotos raras e especialmente interessantes. Promover a reflexão e o estudo sobre a fotografia e sua história. Fomentar a redacção de críticas e comentários a exposições, assim como de recensões de livros.
Gostaríamos também que a APPh viesse satisfazer uma necessidade que muitos ressentem, a de dar voz aos que querem influenciar decisões públicas e privadas sobre a fotografia em Portugal. Questões como a legislação sobre os bens patrimoniais ou os direitos de autor e de imagem; ou como sobre a actuação pública nesta área, o financiamento destas artes, a preservação do património e o ensino da fotografia nas escolas, merecem ser mais discutidas na praça. Começa a ser tempo de ver os interessados participar de modo mais eficaz nestes debates públicos. Os estatutos da associação estão aprovados. A escritura pública feita. Os primeiros corpos gerentes eleitos. Preparamos o programa de actividades. A nossa apresentação pública será feita em breve.
.
Angela Camila e António Barreto, APPh.
.
► Na Fotodigital de Maio de 2008
.
..