domingo, fevereiro 24, 2008

“Os anos da lama” ou “Por uma vida melhor”
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Dos jardins do castelo de Saint-Germain en Laye avista-se Paris e a Torre Eiffel. Nos anos sessenta quem dali não procurasse o horizonte e se inclinasse um pouco olhando para baixo, junto à muralha descortinava as hortas que os portugueses emigrados cultivavam aos domingos - nem todos. Muitos estavam com as famílias à beira dos lagos dos jardins do Vésinet (o Estoril parisiense), faziam piqueniques onde não dispensavam os garrafões de cinco litros em vidro verde forrado no entrelaçado do vime, nem faltava o bacalhau cozido com batatas. Estendiam ao sol as toalhas de linho branco do Minho – os que as tinham. Os domingos eram deles, ninguém lhes ousaria tirar aqueles, poucos, momentos de ilusão. As crianças brincavam com botas rotas e exebindo roupa remendada. Os adultos sonhavam poder vir a ter um daquelas casas apalaçadas que ladeavam e se reflectiam nos lagos dos jardins do Vésinet. Eram às centenas, cada uma mais exuberante que a outra. Os portugueses acreditavam poder construi-las ainda melhores, com telhados mais inclinados, grades e portões ainda mais rendilhados. Quando a noite chegava regressavam aos “bidonvilles” onde a maioria morava. Cheios de sonhos e ilusões, – nem tudo era lama.
Ainda há bem pouco tempo deixámos as casas de granito com tábuas nas janelas e os animais em baixo nas lojas cujos excrementos quentes nos aqueciam. Ainda há muito pouco tempo os nossos avós cortavam a canivete um pedaço de queijo para comer num naco de pão, os mais abastados uma rodela de chouriço ou um pedaço de toucinho. Vivíamos de azeitonas e broas para molhar nas sopas. As casas nas grandes cidades de Lisboa e Porto não tinham casa de banho, havia um lugar que para tudo servia, separado por uma cortina, ali se faziam as necessidades, ali nos lavávamos, ali despejávamos a água com que lavávamos os legumes. Era o buraco. Ainda hoje encontramos pela cidade balneários públicos. O merceeiro fazia as contas que anotava em papel pardo, logo pagaríamos, se tudo corresse bem, no final do mês. Comprava-se o leite nas leitarias, que já não existem. Os papo-secos ou as carcaças nas padarias que são cada vez menos. Os automóveis passavam de pais para filhos. – Se terminares o curso ficas com o carro do pai. Ainda há pouco tempo os pais sonhavam casar bem as filhas, o mais depressa possível e empregar os filhos na função pública ou num banco – que eram para toda a vida, o trabalho e os casamentos. Já não emigramos tanto mas, nada garante que não voltemos a ter de o fazer. Ainda há pouco tempo a maioria de nós morria à nascença. Hoje estamos melhor, como diz António Barreto no “Portugal – Um Retrato Social”. Mas, não somos melhores - digo eu! Temos menos tempo para os outros, somos mais individualistas. Atropelamo-nos constantemente. E temos pouca memória. Também, há poucos testemunhos. E bem falta nos fazem...


© Gérald Bloncourt


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É por estas razões que a exposição do fotógrafo Gérald Bloncourt “Uma vida melhor” que está no Centro Cultural de Belém até 18 de Maio de 2008 se reveste de uma tão grande importância. Porque, mais uma vez, é um estrangeiro a olhar-nos como nós não nos vemos. Gérald Bloncourt olhava para os assustados emigrantes portugueses que fotografava nos bairros de lata, nos anos 50, e pensava: "Que vai fazer? Qual é o seu destino? Ele vai conseguir porque é filho dos grandes descobridores!". E conseguiram. Hoje os portugueses em França são uma comunidade integrada com numerosos exemplos de sucesso empresarial e humano.

Activista político e social Gérald Bloncourt nasceu no Haiti, donde foi expulso para França onde continuou a lutar contra a ditadura haitiana. Fotografou as condições miseráveis em que viviam os trabalhadores portugueses em França nos anos 50, 60’s e 70’s. A entrada nas fábricas, os trabalhos de madrugada no “Les Halles”, então mercado abastecedor de frutas e legumes de toda a região parisiense, a construção da “La Defance”, hoje marca de uma França moderna, mas à época um imenso lamaçal de miséria. Os bairros de lata feitos com os restos de materiais das construções onde trabalhavam como pedreiros, carpinteiros e serventes muitos portugueses. As crianças que, enlameadas, transportavam a água que não havia canalizada e tomavam conta umas das outras até ao regresso dos pais, ausentes nos estaleiros ou nos mercados a maior parte do dia. Gérald Bloncourt também esteve em Portugal nas aldeias do nordeste transmontano donde vinham muitos dos emigrantes que fotografou em França. E, mais tarde, festejou com os portugueses o primeiro 1º de Maio depois do 25 de Abril de 1974, e a revolução dos cravos.


Excerto do documentário "Gente do salto" de José Vieira

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Para além de depoimentos do fotógrafo haitiano sobre o seu trabalho, podemos ver ainda nesta exposição os documentários “Gente do salto” e “Os anos da lama” realizados por José Vieira. “A expressão “o salto” contém a história dos emigrantes que, nos anos 60, partiram de Portugal, sem documentos, em direcção ao norte da Europa (...) O salto” era a emigração clandestina, literalmente o grande salto por cima das fronteiras dos milhares e milhares de portugueses que então fugiram da ditadura de Salazar. “O salto” eram separações e rupturas brutais. Esvaziaram-se aldeias inteiras, em segredo e debaixo de medo. Era a viagem do silêncio. Um acto de resistência e de desobediência que por vezes custou a vida. De tempos a tempos, a policia disparava como se perseguisse prisioneiros evadidos. “O salto era uma evasão que esperava pela amnistia: o regresso ao país. Porém “O salto” foi, quase sempre, a partida definitiva do país.”. Podemos ver no documentário de José Vieira.
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A exposição de "Gérald Bloncourt - Por uma Vida Melhor", foi comissariada por Bernardette Caille, e vai estar no Museu Colecção Berardo até 18 de Maio de 2008. A não perder.
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Ângela Camila Castelo-Branco

Visite o sítio de Gerald Bloncourt e o trabalho de Gérald Bloncourt no sítio do Sudexpresso um espaço virtual de memória e de história das migrações passadas e actuais.

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sábado, fevereiro 23, 2008


PONTO DE VISTA
Fotografias de António Barreto

“Portugal, um Retrato Social” de António Barreto é o resultado de mais de dez anos de trabalho, uma vida dedicada a pensar os outros. A pensar a sociedade portuguesa nos últimos 30 a 40 anos.
“Ponto de Vista” não nos mostra apenas o ângulo escolhido pelo fotógrafo quando opta por determinada imagem. Não é o desfecho de uma espera por um “instante decisivo”. “Ponto de Vista” é o olhar do fotógrafo mas, também, do sociólogo que está dentro desse fotógrafo. No caso de António Barreto, um não pode ser desassociado do outro. Não apenas pelo facto de que as suas fotografias serão sempre associadas à ideia que temos do sociólogo/ fotógrafo, mas pela circunstância de que na realidade as fotografias são o resultado do trabalho de um fotógrafo / sociólogo.

Ângela Camila Castelo-Branco
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"PONTO DE VISTA" é a primeira exposição de fotografias de António Barreto. Trata-se de uma selecção de fotografias recolhidas, em 2005 e 2006, durante a rodagem da série Portugal, um Retrato Social, realizado por Joana Pontes.
Em conjunto com a exposição é lançado o livro com o mesmo nome, disponível apenas na FNAC.

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domingo, fevereiro 17, 2008



Milagres do tempo presente

Dedico este artigo a Gérard Castello Lopes

As duas fotografias que hoje me servem de tema ganharam prémios do World Press Photo 2007. À esquerda, na foto do búlgaro Ivaylo Velev, o esquiador Philippe Meier é perseguido por uma avalanche em Flaine, França, em 15.03.2007. Velev ficou em primeiro na categoria de acção desportiva. À direita, a foto de Miguel Barreira, do Record, ficou em terceiro nessa categoria; mostra o surfista Jaime Jesus no campeonato português em 16.12.2007 alçando-se habilmente duma onda violenta na Nazaré (ver todas as imagens no blogue do PÚBLICO http://blogs.publico.pt/artephotographica/).


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Essas são as circunstâncias das duas fotografias; elas são aqui irrelevantes. Certamente não o foram nem para os desportistas, que correram perigo, nem para os fotógrafos que as viveram do lado de lá da câmara. Mas nenhuma delas foi pr emiada pelas acções desportivas dos seus protagonistas. A única circunstância importante dos dois momentos decisivos nas imagens é conhecermos o seu devir: os desportistas não sofreram com gravidade em consequência dos actos da natureza que vemos. Venceram as ameaças gigantescas que nos são dadas ver.O que interessa nas fotografias, é, assim, e apenas, as próprias fotografias. Elas sobreviveram em primeiro lugar pela beleza. Aplicando o que o antropólogo Julio Caro Baroja escreveu em contexto só aparentemente afastado, ‘as formas de ritual que têm um valor estético resistem ao tempo’. É o caso.Ambas as fotos confirmam e contrariam a essência da fotografia em simultâneo: capturam um momento fixo, único; mas dão-nos também, na rigidez desse momento, a história do antes e principalmente do depois. Não são só a acção em imagem, são a imagem em acção. Tal como a foto do homem que salta de uma das Torres Gémeas, estamos perante duas imagens provocadoras da imaginação, construtoras de narrativas.Há mais semelhanças entre elas. Cada uma mostra um único homem, não identificável. A identidade é tornada irrelevante pela distância e pelas circunstâncias que cada um vive. No caso do esquiador, a cara está tapada pelo equipamento de protecção. No caso do surfista, a distância impede que lhe reconheçamos as feições. Aqui entra uma primeira dimensão cultural das duas fotos -- simbólica ou representacional, se se quiser: estes dois homens poderiam ser qualquer um, qualquer outro. Eles são eles e ao mesmo tempo todos os homens. Apesar de a circunstância revelar a sua valentia, não estão aqui como heróis, pois mais parece que os rodeia uma força exterior a eles.Assemelham-se também as duas imagens por mostrarem os protagonistas rodeados pelo elemento água: gelada no primeiro caso, líquida no segundo, a água ocupa tudo o que há. E a água está nos dois casos em revolta, em avalancha sobre o esquiador, em onda gigantesca envolvendo o surfista.Os desportistas estão em perigo. A água representa aqui em primeiro lugar a morte e não surge aparentemente como a fonte de toda a vida. É uma massa indiferenciada que ameaça submergir os homens. É uma representação simbólica da dissolução, do dilúvio que revela a fragilidade do homem: ‘Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou a afundar-me num lamaçal profundo, não tenho ponto de apoio; entrei no abismo de águas sem fundo e a corrente está a arrastar-me’ (Salmos, 69, 1-2).
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As duas imagens parecem distinguir-se quanto à capacidade de o homem se afirmar perante o elemento em fúria. Vemos o esquiador mais próximo de ser esmagado do que o surfista, porque o primeiro está na metade inferior da fotografia e o segundo na metade superior. A ameaça ao esquiador é, porém, organizada com linhas rectas do gelo a cair em grossas cordas. A ameaça não passa da metade superior. Há, a meio da imagem, uma zona neutra e o esquiador fica a salvo não só por causa dessa distância como devido à sua posição: a forma triangular que assume com os esquis e o bastão resguarda-o. E, pelo movimento de fuga, em menos de um ápice o esquiador estará fora da fotografia, e esse devir é mostrado na imagem fixa. O gelo que cai, a zona neutra e o corpo do homem em movimento seguem todos na mesma direcção, o canto inferior direito seguindo a diagonal que parte do canto superior esquerdo.No caso do surfista, quase não há linhas rectas. A onda do mar é um remoinho, um vórtice que suga em direcção ao centro exacto da fotografia. É aí que está o fundo, o abismo, o ponto mais negro do mar na imagem. Acontece, porém, que a imagem nos dá uma sensação de que o homem não corre perigo. O corpo do homem, num magnífico movimento, acompanha a direcção da onda, mas ele está suspenso, acima da onda, acima do centro do abismo. O seu movimento ascensional diz-nos que ele salvar-se-á. Tal como o gelo, estas não são águas de dilúvio, mas afinal de renovação da vida. Nós sabêmo-lo porque há uma harmonia geométrica perfeita, e a perfeição é divina. O surfista está colocado exactamente acima do cruzamento das diagonais da fotografia. Ele está na metade superior da fotografia porque voa, foge da água em direcção ao céu enquanto o esquiador tinha de estar na metade inferior da fotografia porque foge da água que cai do céu, foge em direcção à terra. Atenção: o surfista está protegido pelo céu, mas também o esquiador, porque ambos estão no ar, não tocam no elemento em fúria, eles andam sobre as águas: poder divino, poder do homem forte e hábil que o desportista representa? Será como o leitor quiser receber estas imagens: mas em qualquer caso, não temerá por eles.Estando no Centro simbólico das imagens, os seus protagonistas não só representam a Ordem como a vitória sobre o Caos que os ameaça. Nas fotos, para mais, o Caos aparece organizado. Ambos os homens sugerem triângulos, símbolos de divindade, harmonia e proporção. E a fúria da Natureza é geometrica. As duas fotografias transmitem esteticamente essa dupla visão do Caos e da Ordem.É assim. As imagens dão-nos realidades, mas realidades aparentes. Elas só ganham sentido com a carga simbólica, sagrada ou profana, que transportam elas e que transportamos nós. São os símbolos que tornam estas imagens não só universais como transparentes, que nos permitem ver a transcendência, o mundo e o homem. Podemos camuflar os mitos e os símbolos, mas são eles que nos salvam. Merecem prémios.
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Eduardo Cintra Torres in "Olho Vivo", Público 16 de Fevereiro de 2008.
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sábado, fevereiro 16, 2008



PEDRO LETRIA
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SÂO TRINDADE



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"O Mundo é belo" de Pedro Letria
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de São Trindade "Sobreviver a uma cidade de futebol"
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21 de Fevereiro de 2008. às 18:30
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No Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa
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Rua da Palma, 246 Lisboa
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Telf.21 886 23 32
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Os Livros de Daniel Blaufuks
28 de Fevereiro de 2008 a 28 de Março de 2008
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Conversa entre Nuno Crespo e o Autor
Quinta-Feira 28 de Fevereiro de 2008, às 17 horas



Um mundo igual a este, mas um bocadinho diferente.
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"A fotografia é um espaço. A fotografia é uma memória. fotografia é um texto. A fotografia é um postal. A memória é uma imagem. Um livro de fotografias bem desenhado pode criar um novo tipo de original."
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Estas afirmações de Daniel Blaufuks partem d consciência de que a imagem fotográfica é constituida de inúmeras camadas de sentido em que a relação entre memória e realidade conhece novas dimensões.
Trata-se de, primeiro, distinguir entre a imagem-facto e imagem-fotografia, esta é um objecto com uma escala e narrativa próprias, a outra diz respeito aos diferentes modos de como o real se inscreve nos corpos, na inteligência, na sensibilidade.
As categorias de interpretação da fotografia estão presas não só à pratica que cada indivíduo, artista e fotógrafom a cada momento definem, mas do modo como essas imagens partiucipam da vida colectiva da comunidade em que se inserem. É neste contexto que o livro de fotografia (também podemos designá-lo como álbum, atlas, colecção e, até certo ponto, arquivo) é uma outra existência da imagem-fotografia. É esta existência que os livros de Blaufuks dão connta...
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Nuno Crespo


Arquivo Municipal de Lisboa /Biblioteca do Arquivo Fotográfico
Rua da Palma, 246 Lisboa
Telf.21 886 23 32
arqmun.fotografico@cm-lisboa.pt




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© Daniel Blaufuks. I Spy, da série Collected Short Stories, 2003
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